
Há anos que guardo esta receita para fazer em um momento especial. É a receita de manjar de coco lá de casa, que na verdade, minha mãe aprendeu com sua Tia Maria, a elegância em pessoa!
Me lembro de ainda pequena ouvir o relato de minha mãe sobre este manjar, servido em um reveilon na casa da Tia Maria no Rio de Janeiro. Além da descrição da delicada textura de nuvem e do aroma da calda de vinho servida de acompanhamento, ela contava que a tia havia servido o doce enfeitado com mini olhos de sogra feitos em uvas passas, ainda no cacho!
Logo o tal manjar virou uma das sobremesas oficiais da família, presente em quase todos os natais, servido em um prato lindo da minha mãe todo pintadinho de preto e vermelho… mas ao contrário da Tia Maria, minha mãe enfeitava com passas em cacho sem recheio.
Rechear uva passa? Trabalhoso demais, dizia ela, coisa de louco. E eu, que com certeza tenho uns parafusinhos a menos, me encantei com a história e prometi a mim mesma que um dia, ainda ia prepará-lo com toda a pompa, recheio e circunstância!
Mas confesso que eu também achava coisa de louco essa história de rechear uva passa… Pensava cá com meus botões: o que leva uma pessoa, munida de uma tesourinha, a abrir uma a uma cada uva passa, retirar as sementes e recheá-las com um cuidado extremo para não soltarem do cacho? Se alguém aí pensou em mais valia, e em São Marx, saiba que foi a primeira coisa que me veio à cabeça!
Mas a verdade é que quando a gente se debruça sobre um preparo como este o faz por puro amor à comida. Pelo pequeno prazer de observar a reação das pessoas, de nutrir, de remeter o comensal a alguma lembrança boa, um sabor guardado…
E no fim das contas o tal pino frouxo que todo cozinheiro guarda em algum lugar da cachola, se chama amor pelo que faz… e foi com essa idéia na cabeça e no coração que preparei o famoso manjar da Tia Maria, com passas recheadas no cacho, para a primeira receita do blog novo da Cozinha da Matilde!
Receita especial, a mais completa tradução desta minha história de amor à comida e que agora compartilho com vocês.
Manjar de coco com calda de vinho e olhinhos de sogra no cacho
Manjar
1 litro de leite tipo A
10 colheres de sopa de açúcar
5 colheres de sopa bem cheias de maizena – o diferencial desta receita é a quantidade de maizena, muito menor que a maior parte das receitas, é isso que vai garantir que o manjar não fique borrachudo e sim com textura de nuvem, extremamente delicada!
200 mls de leite de coco – você pode usar de vidrinho ou fazer seu próprio leite de coco, batendo no liquidificador 1 xícara de coco fresco ralado com ½ xícara de água morna e depois basta passar essa mistura por um pano de prato, espremendo para recolher só o leite.
150 g de coco ralado – eu uso fresco, mas pode ser do seco.
Calda de vinho
1 garrafa de vinho tinto seco – importante usar um vinho de boa qualidade, não precisa ser um caríssimo, mas também não precisa ser um de garrafão, não é mesmo? Eu usei um malbec argentino que ficou muito bom.
1 xícara de açúcar
3 cravos
1 cardamomo
1 pedacinho de canela em pau
4 a 5 cachos de uva passa
1 gema
1 xícara (chá) de leite de coco
½ xícara (chá) de coco ralado
1 colher (de sobremesa) de manteiga
¾ de xícara de (chá) de açúcar
Modo de fazer
Manjar
Leve ao fogo o leite, o açúcar e a maizena, mexa sem parar até engrossar.
Junte o coco, o leite de coco até incorporar bem e então despeje a mistura em uma forma redonda de buraco respingada com água. Coloque para gelar até o dia seguinte.
Calda
Em uma panela de fundo grosso derreta o acucar até formar um caramelo dourado, junte as especiarias e o vinho e deixe reduzir em fogo baixo até o ponto de calda. Esfrie e reserve.
Olhinhos de sogra
Em uma panela de fundo grosso derreta o acucar como fez na calda, junte o leite de coco até dissolver o açúcar e então junte o leite, a manteiga e a gema e deixe reduzir até o ponto de doce mole mexendo sempre. Junte o coco ralado, deixe esfriar e use para rechear as uvas passas.
Para rechear as uvas passas você vai precisar de uma tesourinha de unha (comprada especialmente para este fim, viu?!) e muita paciência.
Com delicadeza abra cada uvinha, retire as sementes e recheie uma a uma com uma bolotinha de doce de coco…
Desenforme o manjar
Regue com a calda de vinho na hora de servir e enfeite com os cachos de olhinhos de sogra!
Bom apetite!
A melhor dica…
… para rechear uva passa é da Denise Guerschman colega do curso de Foto Gourmet, cuja avó sempre fazia dessas uvinhas e que se somou ao meus esforços de enchimento. Passamos uma tarde em volta da mesa falando da vida e enchendo uvinhas…. nem vimos o tempo passar!
A dica quente é essa: chame os amigos para fazerem junto o enchimento das uvinhas e o que era trabalho vira alegria!
Harmoniza com… por Marina Novaes (na Pick’up ) e Marcelo Pedro (no Copo)
Balada do Louco (Arnaldo Baptista/ Rita Lee)
Disco: Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets (1972)
Que Os Mutantes são considerados um dos principais grupos de rock brasileiro, todo mundo sabe! Formados durante o Tropicalismo, em 1966, tinha a minha “idala” Rita Lee nos vocais, Arnaldo Baptista no baixo, teclado e vocais, Sergio Dias, na guitarra, baixo e vocais. Mais tarde o Liminha no baixo e Dinho Leme na bateria também participaram. Pioneiros na mistura de elementos musicais e temáticos brasileiros no rock, o resultado foi inovação, irreverência e psicodelia!
A música Balada de Louco harmoniza com o Manjar de coco com calda de vinho e olhinhos de sogra no cacho porque como disse a mãe da Let, “rechear uva passa é coisa de louco”. Tudo bem que a Let pensou no mais valia, mas ela, e tod@s nós sabemos que: “é melhor não ser o normal” assim como “mais louco é quem me diz, e não é feliz. Eu sou feliz!”.
Em tempo: o nome do disco é uma homenagem ao Tim Maia, que apelidou de Bauret o seu famoso “cigarrinho”.
Minha dica é o vinho grego Mavrodaphne of Patras OPE (Cambás) – Tinto doce elaborado com a uva mavrodaphne, do norte do Peloponeso. Sua vinificação é feita em grandes barricas expostas ao sol. A maturação ocorre em adegas subterrâneas e o vinho é aperfeiçoado, ou “educado”, por adições seriadas de vinhos mais antigos. Tem um tom vermelho-acastanhado, sabor intrigante que lembra a uvas passas, menos intenso que outros vinhos tintos doces como o Porto, mais sútil e menos alcoólico – 15% -, o que o torna perfeito para o doce suave do manjar e o sabor intenso da calda de vinho malbec com especiarias.
















Let, tô sendo transportada para essa cozinha e me apaixonando!
Adorei a receita, a história, as harmonizações. Tudinho.
Beijão!
Fala assim não que eu fico vermelha que nem a calda! :)
Leti, que coisa mais linda!!!!De dar água na boca..e de acreditar que anjos existem e moram na sua cozinha…isto só pode ser dos deuses!!!!
putz. eu não vou achar coco no mercado em montevideo e vou ter que esperar um tiquinho pra fazer… :)
sensacional lets, da próxima vez eu ajudo a rechear as uvinhas – e quero o teu papo bom, cheio de histórias delícia desta família!!!
….ai q delicia Leticia!!!!, minha mãe faz um manjar delicioso, mas esse me deixou com água na boca, adoro seu blog, seus comentários..beijos e muito sucesso sempre!!!!…Felicidades!
Let!
Tá a coisa mais linda tudo! O rango, as fotos, o texto!
Eu quero comer o computador!!!!!!
Beijocas, Gus.
Pode lamber e tirar um pedacinho! ;p
morri 34 vezes! só que a fotinho detalhe das uvinhas nao quis abrir nem por reza braba!
Gostou, Ju? Fico feliz! :)
Vou ver o que rola com a foto! Obrigada pelo aviso!
bj
Let