Bolinhos de Chuva: clássico e em 6 variações

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Fotos por Flavia Valsani

Essa história começou porque dona Flavita, sabendo do meu amor pelas louças PiP Studio, resolveu completar minha coleção com o bule que faltava. Chegou em casa com o danado embrulhado pra presente, e quando juntamos a turma toda em cima da mesa, ficamos tão apaixonadas que começamos, nessa altura do campeonato, a brincar de casinha. Sim. Estendemos forrinhos de crochê e fizemos várias composições, brincando como há anos eu, pelo menos, não fazia.

Como pretexto é tudo que não nos falta, resolvemos continuar a brincadeira em uma sessão, e de bate pronto pensamos em bolinho de chuva. Também pudera, em plena seca, tudo o que a gente quer e que a cidade precisa é um pouco de chuva, um friozinho talvez… se soubéssemos fazer a dança da chuva com certeza faríamos, mas como o que a gente sabe fazer é cozinhar e fotografar, fiz bolinhos enquanto flavita clicava.

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… e pode ser mesmo que uma frente fria tenha chegado por aqui, mas a gente adora pensar que quem chamou essa chuvinha, que não para de cair desde o fim de semana, foram nossos bolinhos.

Então, pode passar um café ou um chá e chamar o cobertor de orelha, que lá vem receita delícia! :)

receita

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Faço bolinho de chuva desde os 12 anos. Junto a famosa bala puxa, de caramelo, era a gordice que preenchia minhas tardes da adolescência entre a lição de casa e a sessão da tarde na TV.

Fazia tanto, tanto, que aprendi vários macetes, testei inúmeras variações da receita básica (quando faltava algum ingrediente eu sempre dava um jeito de substituir) e com o tempo inventei algumas modas que ficaram deliciosas, como acrescentar frutas secas à massa ou inventar diferentes açúcares aromatizados, tudo para mudar a roupagem desse clássico da comida afetiva!

Ingredientes

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Reza a lenda que esses bolinhos  são assim chamados porque eram tradicionalmente feitos em dias chuvosos, quando ninguém queria sair de casa para comprar pão, e acabava se virando com um bolinho feito em casa, a partir de ingredientes triviais, que sempre temos na despensa: farinha de trigo, leite, ovos, açúcar e fermento. O toque especial ficava por conta do açúcar com canela em que o bolinho era passado depois de frito.

Eu dei uma variada na história, e a partir da massa básica fiz 6 variações de bolinhos, em cada uma delas acrescentei um ou dois ingredientes especiais, e ainda 4 açúcares diferentes: além do tradicional com canela, ainda fiz um açúcar de cardamomo, um de laranja e outro de pimenta Baniwa.

Cada um deles casou com uma variação do bolinho e foi uma festa experimentar todos e depois repetir os mais gostosos. (como já disse, adoramos um pretexto!)

Massa básica (cerca de 30 bolinhos)

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  • 2 ovos
  • ½ xícara (chá) de açúcar
  • ½ xícara (chá) de leite
  • 1 xícara (chá) de farinha de trigo
  • 1 colher (sobremesa) de fermento em pó químico
  • 1 pitada de sal

Ingredientes especiais – 6 variações de bolinhos

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As quantidades de ingredientes especiais se referem ao necessário para uma receita da massa básica.

1- Damasco – ½ xícara (chá) de damasco turco seco em cubinhos

2- Pêra com cacau – ½ xícara (chá) de pêra seca laminada + 3 colheres (sopa) de nibs de cacau (amêndoa do cacau torrada e quebrada)

3-  Mirtilo – ½ xícara (chá) de passas de mirtilo

4- Uva passa – ½ xícara (chá) de uva passa

5 – Banana – 2 bananas nanicas madura em rodelas

6- Uva – 1 cachinho pequeno de uvas isabel

 

Modo de fazer

Massa básica

Não tem erro fazer massa de bolinho de chuva, bastam alguns pequenos cuidados para obter um bolinho macio, leve e sequinho.

1- Comece peneirando todos os ingredientes secos para obter uma massa mais leve.

Essa dica vale ouro e para qualquer massa: peneirar evita que os secos formem grumos na massa, deixando o bolinho pesado e com partes cruas no meio.

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2- Quebre os ovos à parte para evitar que um ovo podre estrague os demais ingredientes.

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3- Bata os ovos até ficarem bem misturados, acrescente o açúcar e bata bem, até dissolver seus grãos.

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4- Acrescente o leite e misture bem.

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5- Acrescente a farinha de trigo aos poucos e continue batendo até obter uma massa lisa, aveludada e com bolhinhas de ar.

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6- Acrescente o fermento e apenas misture para que seja incorporado à massa.

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Quem se apega à tradição e gosta do bolinho clássico, sem salamaleques, basta fritar essa massa básica e depois passar pelo açúcar com canela. Está pronto!

Fritando bolinhos de chuva

Aqueça o óleo em uma panelinha relativamente funda. Essa é outra dica importante, se você fritar os bolinhos em uma frigideira ou panela muito rasa, com pouca gordura, ele vai ficar mais uma panquequinha que um bolinho.

Para o bolinho ficar redondinho, e não achatado, é necessário que haja gordura suficiente para ele ficar imerso, ele deve mergulhar no óleo.

Para saber se o óleo está quente o suficiente, mergulhe uma “colheradinha” pequena de massa, se ferver, formando bolinhas de fritura em volta, está no ponto.

Frite colheradas de massa até que fiquem douradas.

Durante a fritura, se o óleo ficar muito quente e os bolinhos ficarem muito escuros, abaixe um pouco o fogo, deixe a gordura esfriar um pouco e então continue.

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Aí é só passar pelo açúcar puro ou com canela ou com o que você escolher!

O único senão aqui é que o açúcar refinado comum é grosso demais e não se fixa no bolinho. Para ficar com uma camada de açúcar por fora, utilize o açúcar de confeiteiro que é mais fino e vai aderir melhor ao bolinho.

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Variações da massa básica

E, para aqueles que curtem uma invencionice, seguem as seis deliciosas variações desse clássico.

Eu dividi a massa básica em 6 porções e fiz um festival com todas as versões, mas você pode escolher apenas uma delas pra fazer em casa. É muito simples:

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1- Com damasco turco – Misture os cubinhos de damasco à massa básica e depois de fritos passe pelo açúcar de laranja.

2- Com pêra com cacau – Misture as lâminas de pêra e os nibs de cacau à massa básica, frite-os e depois passe pelo açúcar de pimenta.

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3-  Com passas de mirtilo – Misture as passas de mirtilo à massa básica, frite-os e depois passe pelo açúcar de cardamomo.

4- Com uva passa – Misture as uvas passa à massa básica, frite-os e depois passe pelo açúcar com canela.

5 – Banana – Na hora de fritar passe as rodelas de banana pela massa, envolvendo-as, então frite-as e passe pelo açúcar com canela.

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6- Uva – Solte as uvinhas do cacho e misture-as inteiras direto na massa, depois é só fritar e passar pelo açúcar de cardamomo. Quando ficam prontos, as uvas estouram na boca… hummmm…

Aliás, essas uvinhas são muito especiais, quem me trouxe uma caixinha delas direto do seu sítio foi o Edu Lofti, que cuida com muito amor e dedo verde da horta e do jardim aqui da Matilde! Axé, queridão, as uvas ficaram deliciosas nos bolinhos!

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Açúcares aromatizados

Simples de fazer e rendem mil preparos, esses açúcares são deliciosos e muito versáteis, vale ter um potinho de cada guardado na despensa!

1- Cardamomo: para cada ½ xícara (chá) de açúcar de confeiteiro – 3 bagas de cardamomo

Soque as bagas de cardamomo no pilão, retire a casca, mantendo apenas as sementes aromáticas, misture com o açúcar pilando.

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2- Laranja: para cada ½ xícara (chá) de açúcar de confeiteiro – raspas de ½ laranja

Misture tudo no almofarriz, pilando, até obter um açúcar levemente amarelo.

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3- Pimenta: para cada ½ xícara (chá) de açúcar de confeiteiro – ½ colher (café) de pimenta baniwa ou outra pimenta em pó disponível

Bem simples: basta misturar a pimenta com o açúcar.

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4- Canela: para cada ½ xícara (chá) de açúcar de confeiteiro – 1 colher (chá) de canela em pó

Misture o açúcar com a canela e aí é passar os bolinhos.

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Agora é só escolher a sua versão favorita de bolinho com o açúcar preferido e correr pra cozinha, é rapidinho!

Vai bem com um dedo de prosa entre amig@s querid@s, ou com aquele filme que você adorar rever e também fica perfeito para comer na cama, embaixo das cobertas e na companhia daquele livro que você não consegue largar!

Bom apetite!

Harmoniza com…

para beber

por
marcelo pedro

O óbvio seria harmonizar o bolinho de chuva com um café preto coado, ou como fez a Letícia, com chá preto. Mas porque não uma bebidinha alcoólica pra esquentar o friozinho?

Então, minha dica é um bom vinho do porto. O porto é um vinho fortificado pela adição de aguardente vínica ao vinho produzido na região do Douro. É o álcool adicionado para interromper o processo de fermentação, que mantém os níveis de açúcar mais alto. Assim, o vinho do porto tem teor alcoólico mais elevado e geralmente é um vinho doce, de sobremesa, ou um ótimo aperitivo.

Existem dois tipos de porto tintos, o Ruby e o Tawny. Quando envelhecido em grandes barricas de madeira, o contato com oxigênio é menor, o que provoca oxidação em menor grau. Este vinho, menos oxidado, tem cor mais viva, mais rutilante e sabor mais adocicado. O envelhecimento em barricas menores proporciona maior contato com oxigênio e portanto, maior oxidacão. Sua cor fica mais acastanhada e seu sabor mais complexo, mais seco. O primeiro é o Ruby, mais apropriado para acompanhar sobremesas. Inclusive é dos poucos vinhos de sobremesa que encaram chocolate. O segundo, o tipo Tawny, vai super bem como aperitivo. E ambos, devido ao alto teor alcoólico são extremamente longevos, podendo ser guardados e envelhecidos por décadas! Mas um vinho do porto com esse tempo de envelhecimento merece ser apreciado sozinho.

Para os bolinhos de chuva, não precisamos de um porto vintage, envelhecido por décadas. Sugiro um porto Ruby, que vai esquentar a alma e adoçar a vida!


para ouvir

por
marina novaes

Bolinho de chuva nunca foi uma especialidades das minhas avós, nem da minha mãe. Não é o lanche que lembra a minha infância, como o bolo de chocolate na forma retangular da Vó Dina ou o queijo quente da Vó Magali.

Mas mesmo assim é daquelas comidas que você associa a conforto, a uma tarde gostosa (para mim) de preferência nublada.

Adoro tardes outonais, invernais e frias. Mesmo durante a semana, horário comercial. Mas minha preferência é estar debaixo das cobertas, com gente querida, um chazinho quente, um lanchinho delícia, como o bolinho de chuva, e uma música melancólica.

E como a receita além da versão clássica, tem seis variações de bolinho de chuva, escolhi sete músicas, uma para cada:

Ella Fitzgerald – Come Rain or Come Shine

Neil Young – Harvest Moon

Leonard Cohen – Dance Me to the End of Love

Carole King – It’s Too Late

Los Hermanos – Casa Pré Fabricada

Nina Becker – Manias (de Dolores Duran)

Djavan – Lambada de Serpente