Flor de abobrinha com nata, ciboulette e beurre noisette

Esse post aqui é especial. Homenagem à querida Tia Ola que resolveu animar a banda lá de cima e deixar a gente aqui embaixo cheio de saudade. Era a leitora mais fiel da Cozinha da Matilde, sempre me mandava mensagens lindas, cheias de apetite e também delicadezas como os lindos forrinhos de renda turca verdes e azuis que ilustram esta postagem.

Mais uma vez uma receitinha de ocasião com o ingrediente disponível na geladeira… e o bom de ser uma geladeira de cozinheira é que vira e mexe sobram produtos muito especiais que rendem boas receitas, como esta aqui.

Marcelo ensaiou um jantar que não saiu e uma porção de flores de abobrinha sobraram na geladeira, eu havia fotografado algum prato com nata e sobrou meio potinho. Ciboulette tem plantada no quintal e manteiga nunca falta em casa de cozinheira. E o sal negro, ah, o sal negro foi a frescurinha que fechou a receita com chave de ouro – e muito cá entre nós, fica muito boa sem ele também, com o bom e velho sal de mesa comum.

Somada aos ingredientes que tinha à mão, a minha cisma de não empanar a flor de abobrinha. Nada contra, mesmo porque é um clássico: flores de abobrinha recheadas e empanadas. Mas nunca me convenceu, sempre me compadeci da textura delicada da flor sendo sacrificada pela agressividade de uma fritura por imersão.

E foi pensando nisso que me veio a cabeça a beurre noisette. Sim, essa manteiga levemente queimada, de um tom dourado quase marrom  e com gostinho de avelã (daí o seu nome) seria perfeita para um toque delicado de gordura sem agredir a textura das flores.

Gostei muito do resultado. Ao serem regadas com a manteiga quente as flores ainda mantêm sua textura e crocância e ficam delicadamente untadas com a mistura da noisette e a nata. O sabor adocicado da dupla explode na boca misturado com a leve picância das flores e o aroma da ciboulette.

Ficou com vontade? O melhor é que é muito fácil de fazer, pá pum. Difícil mesmo só achar as flores de abobrinha, que você pode plantar em casa (logo terei uma colheita) ou encomendar de produtores orgânicos ou procurar na Casa Santa Luzia aqui em São Paulo onde costuma ter.

Ingredientes – 4 porções

  •  10 flores de abobrinha
  • 10 colheres (café) de nata
  • 2 colheres (sopa) de manteiga sem sal
  • 2 colheres (sopa) de ciboulette fatiada
  • Sal negro do Hawaii

Modo de fazer

Beurre noisette

Leve a manteiga ao fogo baixo, deixe derreter e continue mexendo delicadamente até que as partes brancas e solidas do leite escureçam e fiquem em um tom de dourado/castanho. Experimente: tem gostinho de avelãs.

Flores de abobrinha – montagem passo-a-passo

Disponha as flores em uma travessa.

Sobre cada uma delas coloque uma colher de nata.

Salpique com o sal negro.

Agora junte a ciboulette.

E por fim, regue com a beurre noisette quente.

Sirva imediatamente!

Ah, não desperdice o restinho de molho que fica no fundo da travessa, é especial… use um pedaço de pão para limpar e se lambuzar com a mistura da manteiga com a nata!

Harmoniza com… por Marina Novaes (na Pick’up ) e Marcelo Pedro (no Copo)

Móveis Coloniais de Acaju – O Tempo

Disco:  C_mpl_te (2009)

Este post é realmente especial. Flor de abobrinha é a minha comida e da minha mãe. Na verdade a gente dá uma de metida e chama pelo nome espanhol flor de calabaza, porque só fui conhecer esta delícia quando fui visitar meus pais quando moraram no México. Minha mãe, muito mais sortuda do que eu, na sua infância comia fiore di zucca fritta que a Nonna fazia. Alias, a flor frita é divina também! Em Roma, transformamos a entrada em prato principal, e a cada mordida exclamávamos: hmmm!, ai!, uau!, que delicia!…  Estes dias no varejão lá de Mogi, descobrimos que a flor macho que é boa, a segundo a produtora, a fêmea não tem muito sabor.

Bom, mas voltando ao que nos une, “Flor de abobrinha com nata, ciboulette e beurre noisette”  harmoniza com “O tempo” do Móveis Coloniais de Acaju. Uma banda incrível de Brasília, sempre que os vejo, seja ao vivo ao na TV, tenho a impressão que são meus amigos de infância, e a primeira vez que vi foi no Porão do rock, em 2000. São 9 caras que não param um minuto no palco e tocam e dançam, numa coreografia não ensaiada, rock, indie rock, ska, e música brasileira.

A música fala da vontade de eternizar todos os momentos bons que vivemos. E tem sido assim com minha mãe há pelo menos 32 anos. E por isso foi a trilha desta nossa última viagem, em que o Tom, meu filho, nos acompanhou, de dentro da minha barriga, só confirmando que “O meu futuro é esperar pelo presente de fazer/O tempo engatinhar”

A fiori di zucca ou flor abóbora desta receita da Letícia é muito mais leve e delicada que a tradicional receita da flor recheada de queijo e empanada, portanto precisamos escolher uma bebida que não sobrepuje a delicadeza e sutileza de sabores do prato. Hoje vou fazer duas sugestões, uma mais clássica e outra mais surpreendente. A opção clássica seria um vinho branco seco, sem passagem por madeira, originário da região italiana do Piemonte, produzido com uvas Arneis, como o Langue DOC Arneis da vinícola Bera, um vinho delicado mas saboroso e aromático, que combina muito bem com os sabores complexos e delicados da flor de abóbora e da manteiga noisette.

Agora, uma outra possibilidade seria uma cerveja produzida com abóbora, uma Pumpkin Ale, tradicionalmente produzidas nos EUA no outono, coincidindo com o Halloween, como a  Dogfish Head Punkin Ale, ou a brasileira Sauber Beer Pumpkin Ale produzida em Mogi Mirim pela nanocervejaria Sauber Beer. As Pumpkin Ales são menos amargas, mas tem sabor maltado, aroma de abóbora e especiarias como cravo e canela.

É isso aí, clássico ou inovador, saúde e bom apetite.