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a cultura oral dos Yawanawás

Durante a semana que passamos entre os Yawanawás, o Povo da Queixada, em seu território às margens do rio Gregório, no Acre, o que mais me marcou foi vivenciar o cotidiano de uma cultura baseada na oralidade.

Sobre o assunto eu sabia o pouco que tinha ouvido na escola, somado à percepção da oralidade que vivenciamos em nossas vidas privadas, nos pequenos agrupamentos de que fazemos parte, onde códigos e “causos” são passados assim, de forma oral. Mas foi apenas ali que pude entender a dimensão que ela toma quando é a base de uma cultura, onde molda as relações e o modo de ser de cada um.

Já na primeira parada, subindo o rio, na aldeia Matrinchã, depois da aplicação ritualística do rapé à beira da lagoa, começamos uma conversa com os alunos de medicina tradicional que nos acompanhavam e que agora mostravam a “biblioteca” de plantas medicinais que estavam criando na área, através do manejo de culturas. Lá pelas tantas a pergunta brotou naturalmente:

– E onde é que vocês estudam?

– Com Tio Luis – responderam, em referência ao ancião e pajé da aldeia, que eu conheci no mesmo dia.

Nos dias que se seguiram, enquanto debatíamos o projeto que nos levou a aldeia, e a medida que eu conhecia mais estudantes, comecei a entender um pouco melhor como funcionava aquela formação, que na verdade está presente em todos os aspectos da vida Yawanawá, desde os mais simples. E é o que dá o tom das relações nas aldeias.

Quem cresce em uma cultura escrita, conta, na maior parte do tempo, com o conhecimento que está escrito nos livros. Aquele conteúdo, mesmo que um dia venha a ser alterado e se mostre defasado, está gravado e ao alcance de qualquer um que saiba ler.  No mínimo vai mostrar como pensamos um dia sobre aquele assunto.

Para quem vive sob este paradigma é difícil imaginar como seria viver sem nenhum registro onde consultar sobre a sua própria história, seus antepassados. Sem registro de símbolos, língua, letras do alfabeto, cantos, heróis. Sem livros com receitas favoritas e hábitos alimentares. Em uma cultura onde para acessar esse conhecimento é necessário encontrar alguém disposto a contar sobre ele pra você.

Assim vive grande parte dos povos originais do Brasil. Apesar da luz, TV, internet terem chegado às aldeias, que em grande parte se mantêm antenadas ao que acontece no mundo, continuam com quase nenhum registro, que não seja o oral, sobre a sua própria cultura. Isso é agravado pelo apagamento histórico que sofreram a partir da invasão em 1500, quando passaram a fazer parte de uma massa indistinta chamada “índios”, sem qualquer registro que os individualizassem.

Como muitos outros povos, os Yawanawás sobreviveram à duras penas. Quase foram dizimados pela monocultura da seringa na região, mas vivenciam hoje, 500 anos depois, um bonito processo de resgate cultural que começou há pouco mais de três décadas com a demarcação de suas terras.

Eles não passavam de 200 pessoas e a etnia corria risco de extinção. Até ali foram acuados, escravizados, humilhados e proibidos de falar a própria língua, Panos, e também de realizar seus rituais e qualquer outra demonstração cultural que remetesse a sua identidade. O resultado foi que naquele tempo ninguém ali sentia orgulho do que era e ninguém queria passar a própria história adiante.

Com a demarcação e graças a alguns líderes, empreenderam um grande esforço no resgate do tempo perdido. Se reencontraram com eles mesmos, viram o próprio reflexo nas águas do rio Gregório e se reconheceram.  Retomaram desenhos imemoriais, voltaram a tomar o Uni, sua bebida sagrada, reaprenderam com os mais velhos sua língua, seus cantos, voltaram a pintar o corpo com seus símbolos de poder, a jibóia, a borboleta, a onça.

Perceberam a força da sua cultura e fizeram dela a própria sobrevivência.  Hoje vivem do etnoturismo de base comunitária, de gente de todo o mundo que chega até ali pra beber na fonte e se encantar com sua riqueza cultural.

Eu tive muita sorte de também chegar ali nesse ponto, muito depois da tempestade.  E o que eu observei naqueles dias foi uma cultura de absoluto respeito das pessoas entre si.  O respeito de quem sabe que o outro é fonte do conhecimento que acumulou ao longo da vida e que aquele conhecimento não se encontra em nenhuma outra parte, apenas ali, no outro.  Por essa razão, há sempre muita atenção nas conversas, interesse no que é dito e também muito prazer em compartilhar o que o outro não sabe.

Funciona como uma generosa relação de troca, onde todos ganham e que atua especialmente entre gerações, os mais velhos a todo momento ensinando para os mais jovens, que por sua vez os seguem encantados por todos os lugares e depois exercem o mesmo fascínio nos mais jovens, quando chega a hora de repassar aquilo que aprenderam.

Em um dos dias, Tatá, o mais respeitado ancião e pajé de todas as aldeias, chegou para a nossa reunião amparado por uma criança. Um menino de cerca de sete anos, que cuidava dele com um carinho e delicadeza que me encantaram. Indicou caminhos, ajeitou uma cadeira, buscou água, passou quase uma hora na reunião ao seu lado cochichando os detalhes que ele, que é cego, não conseguia ver, e depois disso saiu pra brincar com outras crianças, ocasião em que um adulto que também acompanhava o Tatá assumiu o seu lugar nos cuidados, com a mesma devoção.

Percebi que a medida que envelhecem e se especializam em determinados temas, como a medicina tradicional ou os rituais, algumas pessoas avançam de nível e viram mestres e fonte de conhecimento de toda a comunidade. Formam verdadeiras escolas com muitos pupilos, no que me lembrou muito os filósofos gregos com seus seguidores.

É como se cada um daqueles anciãos virasse um livro onde os alunos aproveitam qualquer oportunidade para consultar. Assim, uma caminhada acompanhando o Tatá equivaleria a bibliografia de uma semana no mestrado. Ajudar o melhor caçador da aldeia em uma caçada te garante uma expertise fundamental pra sobrevivência equivalente a um catatau de 600 páginas.

Nunca aprendi tanto em um lugar. A todo momento alguém vinha me contar ou ensinar alguma coisa. Me ensinaram a passar urucum na pele pra não ser picada pelos mosquitos, o melhor lugar do igarapé pra tomar banho no fim da tarde, que comidas davam panema, como eu deveria passar a mão por uma jibóia caso me encontrasse com uma e o que o deveria pedir praquele animal sagrado. Cantaram seus cantos, me falaram das dietas espirituais e de como era a vida antes, quando ninguém ali queria mais ser o que era. Todas as minhas perguntas eram respondidas com muito respeito e consideração.

Quando foi o meu dia de cozinhar junto com as cozinheiras e jovens das aldeias, tive a audiência mais atenciosa da vida. Não me deixavam pular nenhum ponto, perguntaram sobre tudo com muito interesse. Experimentaram cada uma das comidas que fizemos, mesmo as mais estranhas como a salada de mamão verde e a salada de jambo, que eles só comiam como fruta. As cozinheiras logo me ensinaram suas melhores receitas, como o wantã, um cozido de carne com banana verde delicioso e as bananas assadas diretamente na brasa, sem casca, e que ficam parecidas com pãozinho quente, recém saído do forno.

Enquanto voltava pro nosso alojamento depois do encontro, cruzei a aldeia de peito estufado, toda pimpona, me sentindo um livrinho bacaninha.

E naquela noite, quando fui dormir depois de tomar o Uni pelas mãos do Tatá, que rezou pra que sonhássemos respostas, sonhei com as duas cozinheiras que mais marcaram a minha vida, as que eu seguia por toda parte durante a infância, como se fosse um rabinho, sempre encantada com cada ensinamento, desde as claras que em ponto de neve que não se soltavam do fundo da bacia, ao açúcar queimado pra dar mais gosto ao arroz doce. Maria e Yolanda, meus livros favoritos.

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Receitas

Wantã ou watã

O wantã é uma espécie de vaca atolada de banana verde. A carne é cozida com a banana verde, que vira um molho grosso, nutritivo.

É simples de fazer: refogue carne com temperos e deixe cozinhar até desfiar, junte banana verde picadinha e deixe cozinhar até começar a desmanchar formando um purê.

Banana assada na brasa

Forme um braseiro, quando a brasa estiver incandescente, coberta pro uma película esbranquiçada disponha as bananas verdes sem casca sobre ele, virando a medida que escurecem com o calor. Está pronto! O sabor lembra muito o de um pãozinho quente.

Para ir até os Yawanawás

E para quem um gostaria de conhecer a cultura Yawanawá de perto, recomendamos a operadora Turismo Consciente, com quem tive o prazer de trabalhar algumas vezes na Amazônia, (inclusive nessa viagem) e que promove um etnoturismo e o turismo de base comunitária respeitoso e que fomenta fortemente a economia local.