Mixtapes – por Marina Novaes

Meus pais nunca levaram a sério a história de que eu e meu irmão tínhamos que acreditar em Papai Noel. Na verdade, a gente sempre achou meio maluca a neve em pleno começo de verão e de um único homem percorrendo em uma noite todo o Planeta Terra para dar presentes.

Mas teve um Natal, em 1985, que a gente só ganhou o nosso presente depois que voltou da ceia na casa da minha avó. Lembro meu pai abrindo a porta de casa e minha mãe gritando: “Papai Noel esteve aqui!”. O trabalho que eles tiveram para fazer a surpresa foi tão grande, que foi como se ele tivesse ido mesmo. Para meu irmão, meu pai restaurou um Pegassus antigo, que acabou sendo um presente para os dois, porque eram 3 da manhã e eles disputavam o controle remoto. Já para mim, veio um Rádio Gradiente, com toca fita. Comparando com as minhas amiguinhas, foi o equivalente a casa da Barbie.Além de poder aposentar a vitrolinha da Turma da Mônica, eu ia poder ouvir Rita Lee e Madonna o dia inteiro (como toda criança, eu gostava de Balão Mágico e Saltimbancos, mas eu queria ser a Rita Lee com as roupas da Madonna).

A partir daí, eu fazia tudo com o meu som. Ficava ouvindo o dia todo, até que o tio Flávio me ensinou a gravar as músicas da rádio! Era o meu soulseek, a chance de poder gravar as músicas mais legais da Rádio Cidade e Transamérica! Porque na época, minha mesada só dava para o gibi do Chico Bento, imagina só comprar disco ou fita K7!
Alguns anos mais tarde, quando comecei a gostar do Gustavo, o menino mais bonito da 5ªC do Colégio Santa Mônica, selecionei as músicas que eu mais gostava e gravei uma fita. Lembro que tinha Legião Urbana, Paralamas, Lobão, Rita Lee, Gun´s and Roses, Scorpions, Oingo Boingo, Bliss e outros hits anos dos 80/90.A fitinha foi um sucesso. Não pelas segundas intenções que eu pretendia, mas o Gustavo mostrou para o Rodrigo, que mostrou para o Ivan, que mostrou para o Samuel, e foi o hit do aniversário da Jussara.

E eu, além de começar a ser chamada para escolher as músicas dos bailinhos (meu destino de DJ já estava traçado), tinha prazer em fazer estas fitinhas, que dava de presente para as pessoas mais queridas. Ficava dias pensando nas músicas que eu ia colocar e o seu significado, e varava as noites gravando (claro que nesta época, meados dos anos 90 eu já tinha um soundsystem, com vitrola, entrada auxiliar e duplo deck). E como capa, recortava uma imagem bem colorida das revistas Cláudia da minha mãe, ou pintava com giz de cera.

Pensando bem, fiz bem mais fitas do que recebi. Lembro que meu namorado da adolescência, roqueiro, gravava umas com composições dele, mas quando acabava o repertório ele gravava qualquer coisa, só para preencher o espaço. Outro de Brasília, também mandou uma fitinha com cada música contando uma história da gente. Respondi para ele com a minha primeira coletânea em CD, o “Marina´s selection”, mas aí já não era mais tão personalizado, várias pessoas ganharam, e a série durou até o n° XI. Muitos números foram feitos nas madrugadas do Rio, na casa do Pedrovisk (como o The Smiths falava: “Spending warm summer days indoors).Antes de morar nos EUA, lembro que fiz uma fitinha personalizada para os amigos. Durante o ano que passei lá, na era pré internet, ao invés de mandar uma carta, mandava uma K7. Até cheguei a reatar um namoro com um croata, fã do Radiohead, com uma fita que deixei na caixa de correio dele.

Só quando casei com o Will (uhuuu e dois armários de CD´s), e ele gravou para mim a “Mixtape do Amor”, é que descobri que tudo isso chama mixtape. Mas sabe, gravar um CD não é a mesma coisa que gravar uma fita cassete.

Eu achava isso até domingo passado, quando ganhei o melhor presente de natal deste ano (calma mãe, o lençol de 400 fios é hours concours!). Duas caixas com várias mixtapes! O Patrício e o Pavanelli, dois caras apaixonados por música, fizeram duas “compilações artesanais para brindar os amigos”. E ó que a gente só se conhecia porque a Let, a amiga em comum, falava que a gente precisava se conhecer.

E batata, já no primeiro abraço, eles já eram meus amigos de infância, daqueles que vão durar para a vida toda. Patrício selecionou a fina flor da MPB, coisas raras e clássicos, para dançar, namorar, cantar e se sentir bem. O Pavanelli, que já é parte da história do rock nacional, usou e abusou do soul, funk, jazzfunk e eletrônico. Traduziu o que o Michael Jackson quis dizer em “Blame it on the boogie” com “I Just can´t control my feets”. É impossível ouvir sem querer dançar. Fora o capricho das capas e do adesivo que colocaram nos CD´s.

Com a nossa filosofia da Cozinha da Matilde, de fazer todos os que freqüentam a casa, se sentirem em casa, a beleza e singularidade da idéia do Patrício e Pavanelli nos inspirou e em breve teremos novidades na parte sonora da Matilde. 

E para quem ficou com um gostinho de que quer experimentar a boa musica, no próximo Podiscrer vou pincelar com um pouco das músicas que estes queridos amigos escolheram. 

2009 não tem como ser ruim!!