Naked cakes brazucas e um dia iluminado

A ideia era fazer uma sessão de naked cakes brazucas, a partir dos bolos tradicionais brasileiros.  Queríamos aprofundar em nossa confeitaria, resgatar o bolo de fubá, de cenoura, tapioca, milho verde e dar a todos eles uma roupagem de festa. Eu e a comadre Alê Luvisotto estávamos preparando a empreitada quando dona Flavita Valsani se ofereceu para fotografar uma sessão nossa. Pronto. Fome e vontade de comer alinhadas, partimos para o ataque, ops, batedeira!

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A Flavita, para quem não sabe, é uma das fotografas mais talentosas que conheço. Especializada em making of, tem poesia no sangue, cor no olhar e sabe capturar a beleza cotidiana como ninguém. Estava falando com a Marina: se eu me casasse de novo, Flavita seria a fotógrafa, nem pensaria em outra pessoa. E com todo esse talento, ela ainda se dá ao luxo de ser deliciosa. Gente daquele tipo que sabe preencher o dia com riso frouxo, que chora de emoção e que aporta sempre com o melhor de si mesma e em abundância.

Formado o trio, trabalhamos como se estivéssemos em momento de puro lazer. Enquanto Alê e eu medíamos ingredientes, batíamos bolos, montávamos a mesa de chá, selecionávamos forrinhos, xícaras, pratinhos, Flavita só clicava. Um detalhe aqui, outro acolá, uma lindeza escondida, um suspiro, vários sorrisos… nada escapou, tá tudo ali, impresso.

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Bem diferente das sessões de fotografia de comida com o prato na bancada, rodeado de luzes e a câmera em um tripé, essa foi uma sessão dedicada à alegria dos pequenos momentos, aqueles quando você se junta com sua parceira para mais uma vez fazer o que faz pra viver, o que ama fazer… simples assim.

No fim do dia, Marcelo e Maria Teresa (a FOFA) se juntaram a nós e fizeram cara de “rycos” para as câmeras enquanto degustavam a produção do dia. E e aí, o que já era uma quase festa descambou para festa inteira. Só faltou mesmo a Marina para discotecar.

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O resultado você confere agora, e já peço antecipadamente perdão pelo número absurdo (e muitas vezes redundante) de imagens, foi dureza escolher apenas algumas, ainda mais para uma libriana como eu… como desculpa saco Quintana: “apenas em linguagem amorosa é bonita a mesma coisa cem mil vezes dita…”

Alê e Flavita: Love, love, love!

Naked Cakes

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Você deve estar se perguntando desde a primeira linha deste post: que raio é esse tal de naked cake? Seria um bolo naturista, peladão com a mão no bolso atentando contra o pudor em casamentos e batizados? Um mané pelado revisitado? Ou o bolo do Jamie Oliver, o naked chef?

Nada disso. Naked cake é a nova tendência em bolos de festa. Isso mesmo, bolos seguem tendências, como na moda. E estes aqui são os queridinhos do momento. A ideia que tem feito a cabeça de 9 entre 10 noivinhas é deixar massa e recheio aparentes, sem cobertura (daí o naked) e finalizar a decoração com flores ou frutas frescas. O resultado, super clean e cheio de frescor, é lindo e tem desbancado os bolos tradicionais rococó, cheios de pasta americana.

O inovador aqui foi que, em lugar dos sabores tradicionais de bolos de festa, adotamos os bolos brasileiros do dia a dia. A brincadeira é servir bolo de fubá com goiabada na festa, ou o de cenoura chicoso com azeite de oliva e chocolate belga 80%. Ou seja, despimos ainda mais o naked cake e junto com a cobertura retiramos amêndoas, pistaches, damascos e afins, e mergulhamos em nossas raízes boleiras.

Montagem Naked Cake de fubá com goiabada

A Alê é quem domina essa técnica, afinal de contas a confeiteira profissa é ela, mas vamos lá às dicas e como fizemos:

A receita do bolo de fubá que usamos aqui, você confere logo a seguir, é uma receita da minha família, o Bolo de Fubá da Neuza.

Para o recheio, usamos goiabada cascão derretida em banho-maria, bem simples de fazer.

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Em lugar de fazer um bolo alto e cortar em 3 fatias, faça 3 bolos pequenos – isso garante que seu naked não se quebre e desmanche.

O recheio deve aparecer, então, na hora de colocar faz bonito, com graça, deixa ele quase transbordar pelas bordas como se fosse sem querer…

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Nada de lotar o bolo de frutas e flores, aqui o minimalismo impera, pouca coisa e pronto, tá lindo!

Para o topo do bolo usamos apenas açúcar de confeiteiro e fatias de goiaba que vitrificamos com o maçarico, e que além de lindas ficaram uma delícia! Mas você pode usar fatias frescas de goiaba, se não tiver um maçarico.

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O toque ficou por conta de um raminho da flor amor agarradinho que tenho no jardim. Uma lindeza!

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E agora a receita que usamos como base do naked cake:

receita

Bolo de fubá da Neuza

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Enquanto a Alê atacava de bolo de cenoura, eu resgatei uma receita antiga de família, o Bolo de Fubá da Neuza, que há anos eu não fazia pela dificuldade de encontrar à venda, em Sampa, um bom queijo curado.

Mas com A Queijaria a 3 quarteirões de distância de casa, a receita foi reativada e nessa primeira leva usei um queijo Campo Redondo, com sabor super delicado, que ficou perfeito e emocionou essa mineira que vos escreve. Ainda vou repetir com outros queijos deles mais pungentes como o Serro, depois conto como ficou.

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Essa receita é muito boa, aliás, fica a dica: via de regra receitas com nome de alguém — como o bolo da fulana, a carne de panela do sicrano ou o molho da beltrana — são infalíveis. A tal Neuza aqui do bolo trabalhou em nossa casa quando moramos em Leonino Caiado, na região do Araguaia, em Goiás. Eu fiz pequenas alterações na receita original, aumentei a quantidade de fubá e diminui a de farinha de trigo, pra ficar com mais gosto de fubá.

E a gente já percebe o dedo goiano na receita pelo tanto que a danada é farturenta, rendeu um bolo grande na fôrma de buraco que comemos puro, e mais 3 pequenos (fôrma de 15 cm de diâmetro) que confeitamos para fazer o naked. Mas não se assuste, você pode fazer meia receita, não tem problema!

Ingredientes

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  • 6 ovos inteiros
  • 3 xícaras (chá) de açúcar
  • 2 xícaras (chá) de farinha de trigo
  • 4 xícaras (chá) de fubá
  • 2 xícaras (chá) queijo ralado
  • 3 xícaras (chá) de leite
  • 2 xícaras (chá) de manteiga (1 tablete de 200 g)
  • 2 colheres (sopa) de fermento em pó
  • 1 pitada de sal

Como sempre, não se esqueça das dicas para um bolo perfeito: o primeiro passo é acender o forno para aquecer. Faça todo o pré-preparo antes de começar, assim você percebe a tempo se está faltando alguma coisa importante, como o fermento.

Sempre peneire os ingredientes secos para conferir leveza ao bolo, e muita atenção e precisão nas medidas para não ter erro!

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Modo de fazer

Bata bem os ovos inteiros. Junte o açúcar e continue batendo até dobrar de volume e obter um creme clarinho, quase branco e com todo o açúcar dissolvido.

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Junte a manteiga e continue batendo até estar bem encorporada. Acrescente o leite, mas reserve um pouquinho (¾ de xícara) para dissolver o fermento logo mais.

Hora dos secos: farinha, fubá e queijo. Bata bem, até a massa ficar leve e aerada.

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Desligue a batedeira e acrescente o fermento dissolvido no leite reservado. Fala sério, não é uma lindeza toda esta espuma transbordando da xícara? (eu era vidrada nesta etapa quando era criança).

Depois que a gente acrescenta o fermento não pode mais bater a massa na batedeira, e sim mexer delicadamente com uma espátula para não atrapalhar o crescimento.

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Isso feito, disponha a massa em assadeiras untadas e enfarinhadas, leve ao forno quente, temperatura alta, até crescer (cerca de 15 minutos).

Aí, abaixe a temperatura para a massa assar (mais uns 10 minutos), e para ver se está bom basta enfiar um palito, se sair limpo tá assado! Eu deixo um pouco mais em temperatura alta novamente, para corar (detesto quitandas branquelas).

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Aí é só polvilhar com açúcar de confeiteiro e servir com goiabada cascão derretida em banho-maria… ui… pode suspirar!

Gostou?

E para quem está in love e adora viver a vida em par, Feliz Dia dos Namorados!

Harmoniza com…

para beber

por
marcelo pedro

Excepcionalmente hoje vamos falar de bebida não alcoólica. Claro que poderíamos falar de bolo com Vinho do Porto (no caso do de cenoura com recheio de chocolate), ou um branco doce de sobremesa para o bolo de fubá com goiabada. Mas escolhi escrever sobre a bebida que os ingleses elegeram para acompanhar bolos ao fim da tarde: Chá!

Primeiramente, chá no senso estrito, é a bebida preparada pela infusão de folhas processadas do arbusto chinês Camellia sinensis. Todos os outros ditos “chás” (de camomila, cidreira, erva doce, frutas, etc) deveriam ser chamadas de tisanas ou infusões. Para variar, os primeiros europeus a conhecer o chá, trazerem-no para o Ocidente e iniciar seu cultivo fora do extremo Oriente, foram os bravos patrícios portugueses, em 1543 na época das grandes navegações, quando chegaram ao Japão. Outra curiosidade, a palavra chá, vem do cantonês e mandarim e deu origem ao nome desta bebida no Japão, Índia, Turquia, Rússia e Portugal. Já a palavra no dialeto chinês Min, Te, deu origem ao nome da bebida na França, Inglaterra, Países baixos, Alemanha.

As folhas do chá devem ser processadas, ou preparadas, para o consumo. Dependendo do grau de oxidação, você terá uma das 4 versões do chá: branco, o mais suave, quase sem oxidação, em que se utilizam os brotos e folhas com pouca clorofila. O verde, que tem a oxidação terminada pela aplicação de calor (vapor, na técnica japonesa, calor seco na chinesa). O preto, onde a oxidação é completa. Entre o verde e o preto, temos o chá Oolong, também de origem chinesa, mas que é muito produzido atualmente na Índia. Existem ainda chás que sofrem uma segunda oxidação, bacteriana, que produzedm chás especiasi, cerimoniais, como o Pu-eh, que pode ser consumido após décadas. É muito apreciado na China, e classificado e catalogado como as safras de bons vinhos. É utilizado na cerimônia do chá chinesa (Kung Fu Cha). Espalhou-se e tornou-se parte de inúmeras culturas, como japonesa, indiana, tibetana, árabe, turca. E finalmente a introdução do hábito das tea parties na Grâ-Bretanha foi obra de Catarina de Bragança, princesa portuguesa casada com o rei Charles II, por volta dos anos 1660.

O chá é rico em flavonóides e catequinas, potentes antioxidantes, taninos, que dão o caráter adstringente, e estimulantes do sistema nervoso central, como a teofilina (uma xantina parente da cafeína e da teobromina, presente no cacau) e a L-teonina, associada a um estado mental calmo, porém alerta e focado, onde predominariam as ondas alfa cerebrais, propício portanto aos estados meditativos. Não é à toa que tantos benefícios à saúde física, mental e até espiritual lhe sejam atribuídos.

Além disso, podemos consumir chás puros, blends ou com aditivos, como o famoso e meu favorito chá inglês Earl Grey, com óleos essenciais de mixirica. É justamente este último que recomendo para o bolo de fubá da Neuza! Cheers, ou melhor, enjoy, dear!


para ouvir

por
marina novaes

Já passei uns vários posts do Vitrolinha  falando como eu estou feliz como meu trabalho novo e tal. Mas de todos os ajustes de horários e programações ainda não consegui encaixar os finais de tarde que eu passava na Matilde, tendo acessos de criatividade, terapia e (muitas) risadas com a Letícia.

E vendo as fotos deste ensaio incrível da Flávia, com os bolos delícias da Ale, as idéias lindas e nostálgicas da Let, e que terminou com a degustação divertida com o Marcelo e a Fofa, só tenho uma palavra: inveja. Mas como este sentimento não é tão legal, respirei e vi que na verdade eu queria era estar lá!

E é por isso que a música para harmonizar estes bolos brazucas repletos de afetividades e sentimento, num dia de outono cheio de luz, é uma velha conhecida da Cozinha da Matilde. Poderia até ser o  “lema”, se já não fosse a frase da música Isopor cantada pelo Kleber Albuquerque (mesa farta, casa em festa). Falo de Superluxo, da Nina Becker, carioca, estilista, que também é da Orquestra Imperial e que canta de um jeito suave e intenso.

Sem mais palavras: Ser feliz é um luxo.

E uma tarde assim é um luxo.