Outras Cozinhas 50 – Especial Yamabuki

Chegamos a 50 Recomendações aqui no blog. Como nada é por acaso e sincronicidade é tuuuuudo neste mundo, eu fiquei pensando sobre o que escrever para marcar as 50 postagens, e no sábado fomos a São José dos Campos visitar minha mãe, e aproveitamos para matar a saudade do meu restaurante favorito, o Yamabuki, na pracinha do São Dimas, vizinho à nossa antiga casa e que há muito tempo eu não visitava.

yamabuki

Eis que, olhando o cardápio, encontro na última página um pequeno artigo que escrevi em 2006 sobre o restaurante, no meu antigo blog Comida Honesta (o primeiro que tive). Lá estava ele, reproduzido na íntegra com um agradecimento a mim e ao Marcelo… quase morri de emoção e, ainda meio boba, falei da minha surpresa ao Sr. Koyama, que respondeu com um sorriso e me perguntou: Só viu agora? Faz tempo que você não passa por aqui, hein, Letícia!?

E fazia mesmo, muito tempo… ao menos uns 5 anos… uma vergonha, se for pensar na importância desse pequeno restaurante para mim. Foi ali que aprendi a comer e amar comida japonesa. Cada coisa de uma vez, começando pelo kappa maki (rolinho de pepino com alga) crocante, com arroz equilibrado, alga fresca, wasabi na medida certa… meu pai já tinha me apresentado mais de uma vez, mas foi pelas mãos do Sr. Koyama que entendi o quanto aquilo era bom, daí parti para sushis e sashimis e então mergulhei nos pratos especiais quentes e nas pequenas surpresas que ele me regalava a cada visita.

No balcão do Yamabuki vivi muita coisa especial. Alguns rituais meus comigo mesma aconteceram ali, onde eu ia muitas vezes sozinha pra pensar na vida e também para me presentear por pequenas conquistas, como meus primeiros honorários de advogada, ou simplesmente para acalmar o espírito depois de um dia duro. Joguei muita conversa fora com o Sr. Koyama e com alguns companheiros de balcão, como um professor da Unesp, que encontrei uma vez, ele tinha sido aluno da Martha Kardos e da Wilma Kövesi e, além de me contar causos das duas, ainda me ensinou várias receitas secretas que faço até hoje.

Olhando em retrospectiva, o Yamabuki foi o primeiro restaurante que passei a frequentar por mim mesma, independente da família. E hoje, depois de descobrir inúmeros outros restaurantes com comidas de diversas partes do mundo, depois de mergulhar na comida japonesa, vasculhar portinhas secretas da Liberdade e de outros cantos, me dou conta da sorte que tive de ter começado ali, pelas mãos do Sr. Koyama.

Continua sendo meu favorito, não só pelo que representa em minha vida, mas pela comida sem comparação. Pelas massas frescas, receita da família do Sr. Koyama, as fatias douradas das ovas de tainha (karasumi) que ele mesmo cura (e que manda pro Japão, de tão boas), a berinjela assada (yaki-nasu) delicada, servida com gengibre e lascas de bonito, o donburi com frutos do mar, os omeletes, os famosos espetinhos de língua e os especiais do dia, como o vinagrete de cavalinha e os aspargos com lula e shimeji que comemos desta vez. Fruto do trabalho dedicado de alguém que ama o que faz.

No sábado, quando terminamos a refeição lauta (baixamos o cardápio), Marcelo me olhou e confirmou: Let, não tem dúvida, é a melhor comida japonesa que já comemos. Você precisa escrever outra vez sobre o Yamabuki e precisamos trazer os amigos de São Paulo para conhecer…

Nada mais oportuno pra comemorar 50 Recomendações da casa, não é mesmo?

E como abandonei o Comida Honesta, segue o artigo original que escrevi sobre as delícias do Sr. Koyama:

Maris, Koyamas, cerejeiras, obentos… e línguas!

publicado em 09 de julho de 2006 no Comida Honesta

Estava lendo agora o artigo mensal da Mari Hirata na revista da folha, ela falava do Obento, que quer dizer marmita, e que é uma verdadeira tradição no Japão. Começa ainda na infância, quando as crianças levam o seu para a escola e, assim, além de comerem uma refeição balanceada, matam a saudade de casa na hora do almoço em companhia dos colegas de escola… comida de alma, como diria Nina Horta!

Além do Obento, que cada um traz de casa, Mari conta que existe uma grande competição entre as estações de trem das províncias japonesas de qual seria o melhor Obento. Cada estação traz a especialidade da região, continua ela, os sushis de cavalinhas de Kyoto, o arroz com siri desfiado de Niigatae… a língua de boi grelhada no carvão de Sendai… ou seria São José dos Campos? Explico: Em São José tem um restaurante japonês que vale a pena, ou melhor, vale mais que a pena, típica comida de alma japonesa…

A história é a seguinte: o Sr. Koyama chegou ao Brasil há mais ou menos trinta anos para trabalhar na Panasonic, em São José dos Campos… A delicadeza e educação em pessoa… seu hobby, cozinhar, seu sonho, abrir um restaurante… Porém, sua esposa nunca topou a empreitada, não tinha a mesma alma cozinheira (embora hoje toque um dos restaurantes) e sabia que a trabalheira iria acabar ficando para ela, uma vez que o Sr. Koyama ainda trabalhava na Panasonic… Veio a aposentadoria e os filhos intercederam junto à mãe, tamanha paixão do pai pela gastronomia… resolveram abrir um restaurante pequeno, o Yamabuki. O sucesso foi tanto que abriram franquias nos dois shoppings da cidade, bem diferentes do original, mas mesmo assim bons, dos poucos fast food japoneses que são de fato de qualidade…

Mas voltando ao Yamabuki original, é lá que o Sr. Koyama faz arte. Sem exageros, é um dos melhores restaurantes japoneses que já experimentamos, comida delicada, cuidadosa, artística, sobretudo honesta… É o único japonês em que vamos para pedir Yakissoba, e não é qualquer yakissoba, a massa é caseira, fresca, não está boiando em molho, inchada, molenga… é sequinho, os legumes crocantes, carne de vaca, porco e camarão, tudo misturado, gengibre curtido por cima, delicioso… domburi de frutos do mar… sensacionais… Fora as coisinhas especiais que o Sr. Koyama nos oferece para provar. Certa vez me ofereceu um marisco curtido no shoyo e algo doce (parecia mel) que não tenho palavras para descrever, de tão bom…

A essa altura vocês devem estar se perguntando: Mas o que tem a ver o Obento da Mari com o Sr. Koyama, fora o fato de estarem inseridos no mesmo universo da comida japonesa? É que um dos pratos típicos do Yamabuki, e que só encontramos lá, em nenhum outro japonês, é o Yaki (espetinho) de língua! Sem querer descobri hoje que é típico de Sendai… que deve ser a província do Sr. Koyama (perguntaremos a ele na próxima ida ao Yamabuki). De qualquer forma, vale tomar um ônibus e até um avião para experimentar a iguaria, deliciosa, nossa pedida sempre que vamos ao Yamabuki, imperdível!!!

Continuando com Mari, ela diz que agora no Japão estão em plena época das cerejeiras em flor, verdadeira festa nacional. É uma tradição nesta época comer um Obento sob uma cerejeira… um verdadeiro empurra-empurra pra arrumar um lugar bacana em um jardim público para desfrutar com amigos e familiares a comida sob flores… O Hanami (observação das cerejeiras) é tão festajado no Japão como o carnaval no Brasil, continua ela…

Essa conversa toda me deu a maior fome… na falta de cerejeiras, os ipês estão floridos… Vou resgatar meu exemplar de “O Jardim das Cerejeiras”, preparar meu Obento e sair em busca de um deles pra sentar embaixo…

Quer conhecer o Yamabuki? Fica na Praça São Dimas, em São José dos Campos. Passando por lá, saudações ao Sr. Koyama!!!

Pça Monsenhor Ascânio Brandão, 14 s 4 – Jardim São Dimas – São José dos Campos – SP – (012) 3941.3674