Salteado de Palavras 1

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Bem mais que prazer, preparar o salteado de palavras para o blog Cozinha da Matilde é privilégio. E um bocado de desafios. Desses que a gente abraça com gosto, porque escrever na cozinha também é preciso.

A ideia é abordar, a cada post, aspectos da escrita (curiosidades, dicas de gramática e ortografia e afins) sempre com algum foco no universo da linguagem gastronômica.

E pra começar, uma óbvia, porém inevitável referência ao título atribuído a esse espaço.

O termo salteado, variante do francês sauté (saltou, saltado), é alusão a uma técnica culinária de cocção que me agrada bastante: em pouca gordura, fogo alto e tempo curto. O principal segredo e a graça dessa técnica está no movimento constante dos alimentos que, em mãos habilidosas, saltam rápido – e, às vezes, bem alto – na frigideira (ou wok), numa bela e precisa coreografia gastronômica. 

Além de evitar que os ingredientes grudem e queimem na panela, esse movimento contínuo é importante porque favorece a condução do calor e o cozimento de forma homogênea, conservando a umidade, sabor, cor e textura dos alimentos.

Nos dicionários de língua portuguesa, o adjetivo salteado (particípio passado do verbo saltear) também aparece em movimento, mas com o significado de “tomado de improviso”, “surpreendido”, “alternado”, “entremeado”, “não sucessivo”, “descontínuo”, entre outros. O que, confesso, me agrada ainda mais, porque de fato as palavras surpreendem, nos tomam mesmo de assalto.

Entre o significado da palavra e o sentido da técnica, a contradição – talvez mais aparente que real – do movimento é também a sua melhor combinação.

E quem ainda não se lembraria da expressão “de cor e salteado”? Tão usada para dizer que de algo se sabe muito bem, de memória, e em qualquer ordem. Era assim que a gente tinha de saber a tabuada, gostava de recitar o poema preferido, cantar a música favorita do coração.

Aliás, o coração está na origem dessa expressão. Quem sabe “de cor” em português sabe “de coração” (“cor” em latim é “coração”). Assim como nos seus equivalentes idiomáticos: quem sabe “de cor” em francês sabe “par couer” e, no inglês, “by heart”.

O que, curiosamente ou não, hoje também me faz recordar com especial graça e sentido a linguagem inovadora de Mia Couto – moçambicano que se tornou escritor no chão da cozinha – quando transforma a expressão idiomática “de cor e salteado” em “de cor e sal tirado” (A varanda do frangipani, 12o capítulo).

Por fim, por que contrariar seu Guimarães, uai?