Salteado de Palavras 3 – Ternura em algum ponto

clara-em-neve-(leticia-massula-para-cozinha-da-matilde)

“Aqui é onde mora a ternura.
Ainda que o coração, em seu silêncio,
afunde pela cidade feito pedra −
sabe que este é o ponto da ternura.”
(Tal Nitzán)

 

Mulher de uns e outros talentos, Muriel não é nenhum destaque quando a arte a conjugar é com o verbo cozinhar. Mais que talento, interesse e técnica, falta-lhe prática. Algo que só o (re)fazer ensina. A experiência, diz-se, é cumulativa. Talvez a ternura também seja.

De pequena, o fascínio evidente era pela fotografia − e por fotografar. E tanto, que aos sete anos cumpridos ganhou do tio Aramis sua primeira câmera. A menina, ora se não, encantou-se a ponto de adormecer abraçada à pequena máquina, um bocado de noites seguidas, como se fora seu bicho de pelúcia ou livro preferido.

− O que você tá fazendo, mãe? <clique> perguntava Muriel, incontida de alegria.
− Batendo as claras em ponto de neve <clique> para o suspiro!
− Posso ajudar? <clique>
− Sai, Muriel!<clique> Não vê que tá me atrapalhando, menina? Você não sabe fazer nada mesmo! <clique>

Era mais ou menos assim, toda vez, com ou sem câmera; e a cozinha ia se tornando uma espécie de território estranho, proibido pra Muriel. Ela e sua curiosidade torta não se encaixavam muito bem por ali.

Os olhos de Muriel, duas negras jabuticabas, cresceram pro mundo a registrar um ponto de vista quase sempre doce e inquieto por trás das lentes. E o mundo pra ela também cresceu, sem fronteiras de cenários ou de gente.

Toca o despertador, às oito em ponto. Na boca, a memória − sabor de carne vermelha ao ponto, vinho tinto e beijo meio roubado − estica o gosto agradável da noite anterior ou do sonho que acabara de ter.

Hora de levantar, notícia e café frescos pra começar o dia. O coração afunda em silêncio logo nas primeiras páginas do jornal. Horrores e belezas do cotidiano tão perto, tão longe. A cabeça ferve, borbulham lembranças… feito a água do bule no fogo que já chega ao ponto de ebulição. Muriel prepara o café, enche a xícara até a metade, e uma tirinha de humor político inteligente lhe salva uma gargalhada.

Depois do banho, ainda em roupão, vai pro escritório e vasculha o velho baú em que guarda fotos e câmeras de uma vida. E um punhado de mortes − físicas e psíquicas. Notícias do presente se mesclam a imagens do passado, num labirinto de espelhos que forja o futuro das histórias, do real no imaginário ou vice-versa. Sofisticados e precisos pontos de mira vão cegando, aqui e ali, as possibilidades de humanidade a cada alvo atingido, certeiro.

Enquanto isso, pelo telefone, a irmã lhe convida para jantar naquela mesma noite. Muriel diz que levará uma sobremesa. Fecha o baú e abre o caderno de receitas dos tempos modernos.

 A busca não é feita a esmo. Do ponto de partida − aproveitar as bananas-da-terra maduras da estação que repousam na fruteira, conjugada ao gosto da irmã por suspiro – em alguns minutos chegou ao ponto final, uma receita de preparo simples, rápido e fácil.

Na cozinha, colocou pra tocar uma seleção variada de músicas e separou os ingredientes na pequena bancada (bananas, claras de ovos, açúcar, canela, óleo). Achou tamanha graça do mise en place que não resistiu ao <clique>. Imbuída de um tanto de inexperiência e ternura, segue a receita passo a passo e chega ao ponto crítico a desafiar nesse processo: o tal ponto de neve “perfeito” no suspiro.