Cozinha da Matilde

Fofurismo: Moquequinha de ovo

Postado em 4 de julho de 2012 por Letícia Massula

O Movimento Fofurista baixou na Cozinha… resolvi fazer uma moqueca de ovo em versão fofa para servir como amuse bouche.

Embora pouco conhecido por essas bandas, um dos pratos que gosto muito da comida baiana é a moqueca de ovo. É muito comum em Salvador e meus amigos baianos sempre têm lembranças de como sua “mainha” preparava a danada…

Por aqui o conceito a principio soa estranho, mas é bem mais comum que a gente imagina só que feita de outra maneira: um refogadão de tomate com ervilha, muito cheiro verde e que quando está quase pronto a gente quebra ovos, polvilha com queijo ralado, tampa a panela e espera a gema chegar ao ponto certo (ao gosto do freguês). Minha Tia Regina de Goiânia chama essa versão de Colosso, e quase toda casa tem uma similar, excelente para quebrar o galho nos dias de muita pressa e/ou pouca grana.

O diferente dessa aqui é que servi dentro da casca de ovos comuns, de galinha. Uma brincadeira que fiz para começar um jantar cujo tema foi Brasil do Oiapoque ao Chui. Ficou uma graça né mesmo?

Como já disse, essa mesma receita pode ser feita em tamanho grande, na panela, para ser servida como prato principal. Para fazer essa aqui, eu reservei as cascas com antecedência (assim que usei os ovos lavei com cuidado as cascas e guardei) e ainda aproveitei a caixinha de papel para servir em lugar de travessa.

Como a ideia era fazer um amuse bouche, usei ovos de codorna, assim a porção ficou exatamente no tamanho de uma bocada, mas funciona também usar apenas a gema de ovo de galinha, mas aí já acho mais adequado para servir como entrada.

Ingredientes (4 porções)

Cascas de 4 ovos de galinha

4 ovos de codorna

1 tomate sem pele e sem semente cortado em cubos mínimos (brunoise)

1/2 pimentão vermelho pelado cortado em cubos mínimos

1/2 cebola pequena brunoise

1 dente de alho brunoise

1 colher de sopa de azeite de oliva

1 colher de chá de azeite de dendê

Folhas de coentro para guarnição

1 pimenta de cheiro fatiadinha (opcional)

Sal e pimenta do reino

Modo de fazer

Sue a cebola no azeite e uma pitada de sal. Junte o alho.

Acrescente o pimentão e o tomate. salteie levemente, deixe cozinhar por aproximadamente 2 minutos. Acrescente a pimenta de cheiro, desligue o fogo. Reserve.

Em cada casca de ovo disponha uma colher do refogado de tomate e pimentão. Sobre ele quebre um ovinho de codorna e uma gota de dendê.

Disponha cada casca de ovo sobre uma xícara de café para servir de apoio.

Em uma panela coloque 3 dedos de água, deixe ferver e então coloque as xícaras de café com os ovos em cima dentro da panela e tampe para cozinhar as geminhas com o calor.

Assim que as gemas mudarem de cor e se formar uma película sobre elas, desligue o fogo, disponha uma folhinha de coentro sobre cada uma e sirva imediatamente.

Bom apetite!

 

Harmoniza com… por Marcelo Pedro (No copo) e Marina Novaes (Nas Pick’ups)

Amuse bouche, belisquetes, appetizers, tira gosto. Comidinhas gostosas para comer com as mãos, em coquetéis, em mesas de bares e botecos com os amigos, basicamente desculpa para não beber com o estômago vazio. Se vc for a um bar de tapas, boteco de portuga, ou mesmo em cantinas com antepastos caseiros, de produção própria, é possível substituir a refeição por várias comidinhas, sem ter que apelar pras frituras. Então hoje vou recomendar três bebidas para acompanhar a moquequinha.

Primeiro a mais óbvia, mas nem por isso vulgar, a famosa cervejinha. Como é uma receita de origem baiana, condimentada e apimentada, o que combina mesmo, principalmente se tiver um calorzão é uma boa Lager, como já recomendei as cervejas Checas Pilsner Urquell e Czechvar em outro post. Gosto também das cervejas da Bamberg, que além de uma Pilsen, tem a Helles que é uma cerveja de baixa fermentação da região de Munique, com lúpulo bem marcante e combina bem com petiscos.

A segunda sugestão, principalmente se a moquequinha for servida num coquetel, seria um espumante branco e seco, servido frio e não gelado, que pode ser um prosecco, uma champangne ou, se quiser ser mais original, um vinho verde branco  da casta Alvarinho, que não é espumante, mas é ligeiramente frisante.

E para aqueles que apreciam drinques e coquetéis, sugiro um Kir ou Kir Royal, que são drinques feitos com vinho branco seco ou champagne, com 1/10 a 1/5 de crème de cassis, dependendo do quanto vc aprecia a doçura do licor. Eu prefiro com menor quantidade de cassis, pra ficar menos doce, mas o mais importante, tem que usar um bom vinho e com o licor de cassis francês, nada de xarope imitando cassis.

Salut!

Tenho um amigo português que fala que brasileiro/a tem mania de colocar diminutivo em tudo, o que, segundo ele, deixa as coisas muito mais fofas.  

Verdade ou não, essa moquequinha tá no capricho, com aroma de fofura no ar. E enquanto você vai suando a cebola, ouça “Amarelinha” da banda carioca “Luisa Mandou Um Beijo”. Criado em 1999, como eles falam: “na forma de uma fita demo gravada em uma mesa de 4 canais com vista para o Largo do Machado, no Rio de Janeiro”, eu completo: a base de música gostosa e letras deliciosas, em sua maioria composta pelo guitarrista Fernando Paiva.

Indies mesmo, no sentido de independentes, o último disco, lançado em 2012, foi financiado através de crowdfunding (eu ajudei!) e pode ser baixado inteirinho no site deles.

A música “Amarelinha” é super poética, com quatro versos que te transportam imediatamente ao Rio de Janeiro.

Esse mesmo amigo português, que conheci quando morei nos EUA em 1999, foi que um dia me apresentou a banda escocesa Belle and Sebastian. Na casa que nós morávamos ouvíamos todos os dias o disco Tigermilk (1996).

E a minha faixa preferida é “You’re Just A Baby”, principalmente depois que eles fazem uma paradinha: “…so what’s theeeeeeee reason…”. Recomendo ouvir enquanto se delicia com esse amuse bouche!

Já fui em todos os shows deles aqui no Brasil, e o último foi super especial, fui gravidona de 7 meses. Coraçõeszinhos podiam ser vistos no ar!

Fofurice de vez em quando é muito bom!


Penne Caruru

Postado em 26 de abril de 2012 por Letícia Massula

Dos clássicos da comida baiana, o caruru é um dos meus favoritos. Acho perfeita a combinação do quiabo com o camarão seco, a castanha, o amendoim e sua textura pastosa que unta o acarajé, fazendo dele a bocada perfeita. É uma comida que me conforta.

Também gosto porque é a comida de Cosme e Damião, uma festa linda que acontece 27 de setembro, onde se distribui doces para as crianças e tradicionalmente se serve o caruru do cosminho. Os fiéis pagam promessa oferecendo o caruru para os santos e cada quiabo deve ser cortado em cruz, depois em rodelas pequenas. Dependendo da promessa, milhares de quiabos devem ser cortados e muita gente vem ajudar no preparo e depois comer.

Se você estiver na Bahia na época da festa de Cosme e Damião não perca a oportunidade de experimentar a refeição completa com o carurú e seus acompanhamentos: acarajé, abará, pipoca, cana de açúcar…

Penne Caruru

 

A comida baiana é pura tradição e essa receita aqui é justamente uma brincadeira com o tradicional. Usa praticamente os mesmos ingredientes mas segue por outros caminhos: o quiabo vira chips, o camarão é fresco, o coentro e o dendê aparecem bem de leve na história e todos eles se encontram com uma massa italiana…

O fruto deste casório é um penne caruru, que ficou arretado de bom!

Ingredientes – 2 porções

  • 2 xícaras (chá) de penne – massa italiana de grano duro
  • 16 quiabos partidos ao meio no sentido do cumprimento
  • 12 camarões médios limpos, apenas com o rabinho
  • 2 colheres (sopa) de castanha de cajú moída grosso
  • 1 colher (sopa) de amendoim torrado e moído grosso
  • 2 dentes de alho brunoise (cubos mínimos)
  • 2 pimentas dedo-de-moça sem semente laminadas
  • 3 colheres (sopa) azeite de oliva
  • 1 colher (sobremesa) de azeite de dendê
  • Raspas de 1/2 limão
  • Galhinhos de coentro e castanhas de cajú inteiras para guarnição
  • sal e pimenta do reino moída na hora à gosto

Modo de fazer

Comece pelo chips de quiabo: Disponha os quiabos com a polpa virada para baixo em uma frigideira antiaderente (sem nenhum óleo ou azeite) e leve-a ao fogo mínimo até que a polpa do quiabo fique marrom escura, caramelizada.

Separe 10 metades inteiras de quiabo para finalizar o prato e corte o restante em pedaços menores. Reserve.

Aqueça uma frigideira antiaderente, pincele com azeite e doure os camarões dos dois lados (aproximadamente 1 minuto cada lado). Reserve.

Aproveite a mesma frigideira e sue o alho na mistura dos dois azeites e uma pitada de sal. Acrescente a castanha de cajú e o amendoim. Salteie por 1 minuto. Junte os camarões, a pimenta dedo de moça e as raspas de limão.

Acrescente o penne cozido ao dente e meia concha da água do cozimento da massa (isso vai garantir que a massa não fique ressecada). Salteie levemente para misturar todos os ingredientes. Ajuste o sal e polvilhe com pimenta do reino moída na hora.

Sirva com as fatias de quiabo, castanhas inteiras e as folhas de coentro. Axé!

Harmoniza com… por Marina Novaes (na Pick’up ) e Marcelo Pedro (no Copo)

Quebrei a cabeça sobre o que comer com um prato mezzo baiano mezzo italiano. Cerveja? Vinho? Pesquisei um pouquinho e achei um blog muito legal da Sommelière Alexandra Corvo, onde ela descreve uma degustação de pratos bem brasileiros com vinho verdes portugueses. E deu o estalo!

Vinho verde é uma denominação controlada de vinhos produzidos no Noroeste de Portugal, entre os rios Minho e Douro, assim definida desde 1908. As principais castas de uvas produzidas da região são Alvarinho, Loureiro e Avesso.

Existem vinhos verdes brancos, tintos, rosé e até espumantes. São chamados verdes por terem sido produzidos inicialmente com uvas verdes, não totalmente maduras, mas hoje isto já não é fato e as técnicas de produção são modernas e elaboradas, com uvas em ponto de maturação ideal. Por serem produzidos em solo granítico, com abundância de água e com clima ameno, produz vinhos refrescantes e minerais, alguns até mais aromáticos e frutados, que podem ser bebidos com sobremesas.

Os vinhos verdes só perdem para o vinho do Porto em volume exportado por Portugal, e durante a praga da Phyloxera abasteceram de modo importante o mercado francês. O Brasil era o principal importador de vinhos verdes, hoje superado pela Inglaterra. Os bons verdes, na minha opinião são os brancos. Os tintos, produzidos com a uva Vinhão por exemplo, são extremamente adstringentes, meio rudes, sendo de difícil harmonização com a comida. Já os brancos são mais leves, e a fermentação maloláctica produz ácido lático e succínico, que são mais suaves e refrescante ao paladar que o ácido málico. Além disso, esta fermentação que ocorre após a fermentação alcoólica produz gás carbônico, por isso os vinhos verde brancos são algo frisantes, tem “agulha”, o que colabora com sua refrescância.

Portanto, meu rei, escolha uma boa garrafa de vinho verde branco, de preferência da uva Alvarinho, sirva-o frio como dizem os patrícios, que não quer dizer gelado, e sim frescos em torno de 8oC e bom apetite. Saúde!

 

Segun Bucknor & His Revolution – La la la

A Bahia, se expressa por seus ritmos, costumes, comida, religião e por aí vai…. É uma coisa linda de se ver a sexta feira em Salvador todo mundo de branco!

E para harmonizar este reinventado Caruru, trago um pouquinho de musica yorubá, que é um gênero de música popular nigeriana, que tem tradição de percussão, tambores em tensão e dundun. Com toques europeus e islâmicos, com a introdução dos instrumentos de sopro. E Segun Bucknor é um dos expoentes, com uma gostosa e marcada influência da funk music.

Contemporâneo de Fela Kuti, aliás, primo em segundo grau, não fez tanto sucesso quanto o parente. Mas foi bem popular na Nigeria, Gana e Benin entre 1969 e 1975. Suas músicas também tem um cunho político e de denúncia social, tanto é que sua carreira parou depois que guardas armados invadiram show na Nigéria. Uma pena, porque as músicas são pedradas atrás de pedradas.

Mas uma coisa é certa: folclore, adoração espiritual, política, ritmo e groove. Yorubá é falado aqui e lá!


2006-2012 Cozinha da Matilde

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