Vitrolinha – Salve a Rainha

Para fazer jus ao ditado “em casa de ferreiro o espeto é de pau”, quando ando de carro, dificilmente levo o Ipod, ou CDs. Um pouco de preguiça confesso, mas também é bom saber novidades e ter uma referências.

Até o começo do ano as opções de emissoras de rádio eram melhores, mas desde que extinguiram a Oi FM e a MIT FM, tá duro! Mas nessa história eu voltei a ter gravado no rádio a freqüência da USP FM, que é legal, mas às vezes vacila, tem um quê de caseiro, mas remexe bem no baú musical.

E eles passaram junho inteiro falando que teriam um especial da Donna Summer. Eu escutei uma vez a vinheta, lamentei ela ter morrido em maio deste ano de câncer, e só. Ao ouvir de novo a chamada mudava de estação, porque a qualidade das chamadas, vou te contar…

Eis que, em um sábado pedi para a minha mãe ficar com o Tom para ir numa super festa que acontece onde o Will tem estúdio, a casadalapa . A primeira balada que ia depois que o Tom nasceu. Quer dizer primeira balada oficial, porque casamentos de amigas e festa em que fui discotecar (=trabalhar) não conta.

Entrei no carro e não é que estava passando este tributo à Donna Summer? Bem na hora que estava tocando I Feel Love. Começou a introdução com os sintetizadores, a voz dela dizendo It’s so good, I’m in love, I feel love, Fall and free… lá pela metade da música para tudo e ficam só os sintetizadores, e de pouquinho ela volta falando I’ll get you, e assim vai como um mantra. A música é comprida, e na rádio eles tocaram ela inteirinha. Pirei no carro, queria que o Will tivesse lá para a gente conversar! Fiquei pensando o que seria da música eletrônica se não fosse essa faixa? Será que na época que foi lançada (1977), as pessoas sabiam que aquela era a música do futuro? Era normal tocar na rádio? É muito arrojado. Quanta sensualidade, meudeus!

Fiquei com vergonha de mim mesma por só ligá-la a Breakaway e Last Dance (esta, muito boa de pista). Quando cheguei na festa, precisando conversar sobre isso, e vi o Pedro Noizyman, comendo um sanduíche de carne louca, atravessei a cozinha e disse: “Pedro, acabei de ouvir I Feel Love na rádio.” E ele na hora me entendeu, e começou a me falar mais sobre a Donna Summer, sobre o seu vanguardismo, das várias músicas que foram número 1 nas paradas do mundo, e que essa história de sensualizar assim descaradamente e ser muito sucesso era uma novidade. Ele ainda falou que ela tinha atitude mesmo, e que quando lançou She Works Hard for the Money, a canção virou um tipo de hino feminista, contando a história real de uma garçonete (Onetta) que estava tirando um cochilo no banheiro do restaurante em que trabalhava, porque estava muito cansada dos 2 empregos, e que dava duro mesmo para ganhar o dinheiro.

Bom no dia seguinte à festa, o Will ficou me mostrando os discos que tinha e eu comecei a enlouquecer de novo, com tanta coisa boa. Primeiro foi Sally Go Down the Roses, de 1971, que não fez muito sucesso, mas é tão groove! Foi o primeiro single lançado por ela, que ainda assinava Donna Gaines (pois o Summer veio de uma adaptação do sobrenome do marido alemão Helmut Sommer)

Depois foi Love to Love you baby, seu primeiro sucesso e uma das primeiras músicas da Disco Music. Fazia sucesso em boates gays, onde tinham DJ’s ao invés de bandas.  E é outra loucura, cheia de grunhidos e sussuros. Foi top nas paradas, foi trilha de filme (Saturday Night Fever). Originalmente ela tem quase 17 minutos, e dizem que ela gravou com as luzes do estúdio apagadas e deitada no chão. Outros contaram que tem 23 “orgasmos simulados”. Outros falam que ela teve uma onda cristã e decidiu que não ia tocar mais a música, mas claro que voltou a tocar (eeeee).

Spring affair, que abre o disco Four Seasons of Love, fala do começo de uma relação, depois segue Summer Fever, Autumn Changes, Winter Melody  e depois uma versão menor de Spring Affair, (porque as outras tem mais de 6 minutos).

Outra que virou favorita é On the Radio. Simplesmente por começar devagar e romântica e depois a Disco pega e vira pista forte.

No final do dia, entendi sua importância. Entendi porque ela é a Rainha da Disco. E quero tirar o atraso por ter ficado tanto tempo sem ouvir com cuidado e apreciação.