Vitrolinha – Virada do Amor

Estou numa fase que já dura um tempo de paixão por São Paulo. Na verdade sempre fui apaixonada, tanto é que quando estava no colegial, mais do que passar na faculdade eu queria mesmo era morar em SP.

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Em 2008, quando morava m Pinheiros, passou uma série na TV a cabo, chamada Alice, que nem era tãããão boa, mas tinha cenas e mais cenas lindas da cidade, que me fez ter mais vontade de vivê-la.

Tanto é, que nos convencemos a morar no centro. Só que não começamos muito bem. Fomos morar no Bom Retiro, que era perto de um antigo trabalho meu, mas o bairro não era tão charmoso e a vizinhança não foi tão amigável com a gente. A nossa vizinha de baixo, por exemplo, toda vez que recebíamos alguém em casa, no dia seguinte nos saudava com batidas de um cabo de vassoura. A falta de lugares 24hs também pesou. E fora que a ONG que trabalhava era uma furada.

Aí, um dia saindo da saudosa Casa Belfiore, na Barra Fundapegamos o comecinho da Al. Barão de Limeira, e adoramos! Decidimos que era por lá que íamos procurar o novo apê. E encontramos, no meio da intersecção entre Barra Funda, Campos Elíseos e Santa Cecília, o famoso Baixo Centro.

Comecei a trabalhar com imigrante e estudar a imigração de uma perspectiva da História contemporânea. A integração  destas pessoas com a cidade permeia todo este estudo, e que visivelmente sente a influência de mais uma das infinitas transformações.

E comecei a sentir esta cultura de viver o centro, com festas na rua, cineclube do bairro, passeios de domingo no Minhocão. Quando o Tom nasceu então, estava de licença maternidade e passava todas as tardes passeando de carrinho, (às vezes como se fosse uma trilha off road, claro), dividindo meu momento de plenitude materna com São Paulo.

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Na coluna passada falei sobre meu novo momento profissional , e que cada vez mais tudo faz sentido dentro desta perspectiva badauera que nada acontece por acasoEu não só trabalho no centro da cidade, como trabalho para a cidade. E sob a ótica dos Direitos Humanos, com convicção e com vocação de lutar por condições mínimas e dignas para todas e todos. (Ai que legal!!)

Um dos grandes responsáveis por tudo isso é o Daniel, que já declarei meu amor aqui no Vitrolinha.  Ele começou o ano trabalhando na Subprefeitura da Sé, mas o bandido vai pra Brasília, passou num super concurso, e enquanto não é chamado, vai trabalhar no Ministério da Saúde, na Coordenação de Saúde Mental. Uma de suas festas de despedida, foi um happy hour no Bar Guanabara, um verdadeiro achado no meio do Vale do Anhangabau.

A turma do meu trabalho, a turma do trabalho dele, pede uma, pede mais, 5 saideras, conta astronômica… e o pessoal animou para encontrar outro pessoal que estava no bar Brahma. Totalmente sem ritmo para ir de bar em bar no meio da semana, desisti, mas fui caminhando com eles para pegar o metrô.

Eis que engato uma conversa com Marcos Barreto, o Subprefeito dos Subprefeitos, que me conta a história do Edifício Martinelli, entrecortando com partes do filme Rua São Bento, 405, Prédio Martinelli, do Ugo Giorgetti, e quando olho ao redor somos um grupão de pessoas passando pelo Largo Paissandu, lindo lindo, sem o corre corre do dia, e pensei: “isso é uma pré-Virada Cultural”.

E foi um petisco da Virada mesmo. No sábado toquei no casamento Anamelia, a noiva que soube fazer um casamento com um dos climas mais gostosos que eu já vi. Apesar de ter acabado cedo, fiquei bem cansada, e nem me arrisquei me aventurar pelos shows. Mas tinha feito o meu roteiro, que seria:

Daniela Mercury com o Zimbo Trio no palco Julio Prestes. Não podia ter artista melhor para abrir o evento, não só pelo “respirar o amor aspirando liberdade”, mas porque “O canto desta cidade sou eu”.

De lá, eu correria para ver na São João o Edgar Scandurra com o Billy Cox, o baixista do The Jimi Hendrix Experience. Tipo histórico:

Às 22h30, na Rio Branco, eu ia dar uma olhada no Emicida, neste palco que ficou muito bom (e este clipe é um primor).

Ia sair no meio, para voltar ao palco Julio Prestes  e ver Black Star, do duo de hip hop com o Mos Def e Talib Kweli. U-A-U.

Como eu teria perdido o Sidney Magal no Arouche, ia ficar pra ver, às 1h no mesmo palco o Kaoma e às 5h, a Banda Uó.

Neste intervalo eu ia ver a atração que eu mais queria ver: George Clinton e P-Funk. Apenas “o” cara da Funk Music, membro do Parliament-Funkadelic. Tod@s meus amigo@s que foram ficaram extasiad@s (ai inveja!) Ow, we want the funk/Give up the funk /Ow, we need the funk/ We gotta have that funk

Enfim, o que aconteceu na vida real, é que o Will acordou as 7h para tocar no Mercado Mundo Mix na praça Dom José Gaspar, às 8h. O Tom acordou minutos mais tarde com a corda toda. Eu e ele combinamos de passear por São Paulo.

Descemos na  e fomos andando pela cidade. Passamos pela Rua Direita, depois no Pateo do Colégio, no Coreto da Bolsa de ValoresViaduto do Chá. Me senti tão bem de andar por ali com meu filho, a cidade meio que acordando, meio que recuperando da noite anterior.

Eu tinha algumas restrições com a Virada, porque parecia um evento episódico, que se esgotava em um final de semana a política cultural, sem deixar nada arraigado, ou fazendo o espetáculo do monumento. Mas fiquei  emocionada. De cabo a rabo,  até chegar à praça D. José Gaspar, ao som da discotecagem do meu marido.

O sol foi saindo, vesti uma “pulserinha passe livre”, e fomos explorar. Passei no palco da República, cheio de gente sambando, peguei o metro depois de um certo sacrifício de acessibilidade, tanto lá, quanto na Luz onde desembarcamos. O moço do metrô quis ser atencioso comigo e disse para eu tomar cuidado com a criminalidade, perguntou se eu tinha visto notícias da Virada… E eu não tinha visto mesmo e achei um comentário de quem assiste muito o Datena. Depois soube que a coisa foi complicada, pessoas morreram, outras apanharam de graça, outras tiveram celulares roubados (com violência ou grave ameaça). Foda. Mas todo dia é foda.

E o Tom que tirou um cochilo, acordou no meio do show do Criolo. Deve ter achado que acordou num universo paralelo, porque era muita informação. Primeiro a multidão que estava. Segundo, o Criolo no palco Julio Prestes. Terceiro, porque a mãe dele estava lá cantando a todo vapor que “não existe amor em SP.”  E o ponto alto do show foi quando o DJ Dandan falou “mãos para cimaaaaa” e o Tom obedeceu, com as duas mãozinhas levantadas.

Nós dois saímos do show muito empolgados e vimos uma barraca de pastel. Ele apontou e falou(pas)”tel”, como um comando! E dividimos um pastel de queijo.

Fomos ao parque da Luz, na Viradinha, e estava para começar o show do Pequeno CidadãoConvidamos a Ioná (melhor amiga do Tom), a Pri e o Leo para curtirem com a gente, e dançamos o show todo. (achei este vídeo que tem no comecinho uma cabecinha empolgada pulando no canto inferior esquerdo: eu mesma!)

Às 15h30, sob protestos do Tom que queria ficar, voltamos pra casa, apesar de querer ver o Andre Abujamra tocando a Arca de Noé e o Bexiga 70 com Samtimbancos (e óbvio, o show dos Racionais) . Mas nós ainda tínhamos que ir na vigésima quinta festa de despedida do Daniel. E depois de um mini relax em casa, o Tom dormiu no caminho. Chegando lá, continuou dormindo. Aliás, ele só acordou no dia seguinte.

Fiquei digerindo por uns 3 dias estes momentos tão bacanas, de celebrar pela cidade junto com o meu filho. Foi um momento muito importante na minha vida musical e materna. A prova maior disso foi voltando com o Tom da escolinha de ônibus na terça feira. Bem atrás do motorista tinha um cartaz de propaganda da Virada. Com um grito, o Tom apontou o dedo e disse:

Ele: “Virada”!

Eu: “É filho, isso mesmo”.

Ele: “Mamãe e Tom”.

Eu: “Sim! Nós fomos! Que show a gente viu?”

Ele: (Cr)”iolo”!

Eu: “É! E o que mais?”

Ele: (Pequ) “eno cidão”.

Derreti de amor naquele momento.