Caminho de Cora Coralina – O que é o Caminho

No começo de outubro, fizemos em seis dias um trecho de 150km do Caminho de Cora Coralina, que vai de Corumbá de Goiás até a cidade de Goiás. A ideia era terminar o Caminho inteiro, mas infelizmente uma má decisão quanto a meia que eu usei deixou os meus pés cheios de bolhas, que inviabilizaram continuar, de maneira agradável, o percurso.

Em dezembro pretendemos retomar e terminar a metade que falta, mas como muita gente perguntou sobre esse primeiro trecho (e até porque ele está fresco na cabeça) resolvemos publicar esse primeiro relato aqui pra ajudar que está interessado em fazer.

Quando fizermos a segunda parte voltamos para completar o relato com os outros trechos.

O que é o Caminho de Cora Coralina

É uma rota turística inaugurada em 2017, inspirada em outras rotas (como o Caminho de Santiago) e que liga Corumbá e Cidade de Goiás (Vila Boa de Goiás, antiga capital do estado, conhecida como Goiás Velho), passando por fazendas, povoados e corrutelas goianas.

O nome é uma homenagem à poetisa Cora Coralina, da cidade de Goiás, ícone da cultura goiana, a poetisa que fazia doces pra viver e que registrava em poesia o cotidiano do seu povo.

Cora nunca fez esse caminho, é bom explicar, mas sua história foi toda feita de longos caminhos, como o que ela fez na calada da noite fugindo de Goiás para viver um amor proibido, pra voltar quase meio século depois, viúva, viver de doces, escrever poesias e daí virar história. 

O Caminho foi idealizado e desenhado, veja só, por um gaúcho. O Bismarque Vilarreal, engenheiro radicado em Pirenopolis, com grande experiência em trilhas e caminhos históricos, foi quem fez um longo estudo baseado em 5 caminhos que passaram pela região, pra então fazer o traçado definitivo do Caminho de Cora.

Ele se baseou em um caminho maior, a Estrada Real dos Goiases, de 1734, com 3 mil km e que vai da Bahia até a Bolívia, passando pelo Planalto Central, descrito no diário de viagem de Cunha Menezes, capitão geral da Província de Goiás.

Estudou também os relatos de  (1) Sain’t Hilaire, naturalista francês e do também naturalista austríaco (2) Johann Emanuel Pohl, que fizeram expedições pelo interior do Brasil passando por Goiás no inicio do Sec. XIX (entre 1817 e 1822).

E ainda no (3) relatório da Missão Cruls, nomeada pelo Presidente Floriano Peixoto, em 1892 e chefiada pelo geógrafo belga Louis Ferdinand Cruls para demarcar a área que futuramente abrigaria a capital do país, denominada de quadrilátero Cruls, que veio a se tornar o Distrito Federal.

Por fim, pesquisou os relatos do dentista viajante (4) Oscar Leal, que fez uma viagem por Goiás entre os anos de 1889 e 1891.

A partir destes caminhos, Bismarque fez o primeiro traçado do Caminho de Cora e começou toda a articulação com os povoados, cidades e fazendas para que apoiassem o caminho, deixassem os viajantes passar, abrindo literalmente portas e porteiras.

Feita a articulação, ele fez então a marcação do caminho, adotando um código de pegadas já utilizado em outras trilhas, mas com o nome cora no meio da pegada. Essa marcação foi feita com tintas preta e amarela, registrando as indicações em árvores, pedras e outros marcos ao longo do caminho. O governo estadual (gestão anterior) deu um pequeno apoio que foi revertido para a marcação, especialmente a colocação das placas com trechos da poesias de cora.

Fundamental destacar o empenho do Bismarque, que foi lá e fez. Tirou dinheiro do bolso, doou tempo, juntou gente, chamou os amigos, bateu em portas e fez. Formou uma Associação do Caminho (com sede em São Francisco), envolveu os povoados e as pequenas cidades, que abraçaram o projeto como uma importante iniciativa de turismo de base comunitária e de valorização da cultura local.

Continua fazendo. As marcações demandam manutenção, com o tempo se apagam. As articulações não acabam, é preciso mais pousos (abriu a própria casa para ser pouso), acionar mais gente, ele vai até lá e faz. O caminho tem gargalos, trechos muito longos, fazendas que não permitem a passagem, ele sabe cada um dos problemas, repensa, remarca o caminho, já fez isso algumas vezes e continua quebrando a cabeça pra solucionar o que falta, não para.

Antes de começar o Caminho, tivemos varias conversas com ele e um dia saímos junto pra reforçar marcação, visitar pousos, estabelecer novas parcerias. Enfim fomos conferir e fazer junto o que ele vem fazendo só há muito tempo. Rodamos uns 200km com ele, passando por diversos pontos do Caminho. Foi muito bacana ver seu empenho, dedicação, conhecimento sobre o assunto, o carinho que as pessoas e comunidades têm por ele (e ele por elas), e a esperança que depositam no projeto.

Tudo isso pra dizer que é um caminho novo, em construção. Um caminho feito de maneira orgânica, quase artesanal, fruto de muita força de vontade e esforço, e que por isso mesmo tem problemas a serem resolvidos nesse começo. Coisas que acreditamos que vão se organizando com o tempo, com a maturidade do projeto e o envolvimento cada vez maior das pessoas, comunidades e de cada um que se dispõe a fazer o percurso.  Ficamos muito felizes de estar fazendo agora, nesse começo, vai ser bacana olhar essa aventura daqui a dez anos, ver no que o Caminho vai se transformar. Sorte grande a nossa.

Nesse começo, nesse primeiro momento, que é praticamente um “soft opening”, o Caminho não é amigável para qualquer pessoa. É pra uma turma mais aventureira, que não liga de improvisar (até gosta). Pra quem faz questão de tudo perfeito, detalhado, super estruturado, hospedagem padrão, talvez seja melhor esperar alguns anos para fazer o caminho, agora não é o momento. Ou faça os trechos com mais infra, como a subida e descida do morro dos Pireneus, chegando em Piri , com toda a sua estrutura hoteleira.

O que há pra ver

Nessa primeira metade, andamos 150km. Dividimos o que vimos em duas grandes áreas de interesse:

O primeiro pedaço vai de Corumbá até Pirenopolis e passa pelo Parque Estadual dos Pireneus. É um percurso de imersão no cerrado, com trechos de natureza intocada, cachoeiras, trilhas estreitas, pouca estrada. Muita fruta, bicho, mirantes. É o trecho pra quem curte natureza, pra quem curte as cachoeiras de Piri, pra quem gosta de pegar trilha e chegar a um lugar de banho.

O segundo pedaço vai de Pirenopolis até Jaraguá, passando por Caxambu, Radiolândia e São Francisco e é todo de fazendas antigas, históricas, e a maior parte por estradas pequenas de terra. São poucos os locais de banho nessa parte do caminho. Então, se você é da turma que adora terminar a trilha na cachoeira, esse não é um trecho pra você.

Esse trecho é contemplativo, para quem quer vivenciar a goianidade, conhecer a cultura local. O que você vai ver são pequenas fazendas autossuficientes, muito antigas, como a do Seu Quinzinho (um dos pousos que ficamos), com bica d’agua, galinheiro, horta, pomar (um goiabal gigantesco no pé do morro <3) chiqueiro, pasto e um grande Flamboyant (os Flamboyants marcam as fazendas, viu um pé, pode saber que tem casa junto, herança da colonização portuguesa), cozinha grande com fogão à lenha, mesa farta. Tudo muito simples, muito limpo, funcionando.

É uma volta ao passado. A um agro que não é pop, nem tech, mas que sempre viveu e continua vivendo da terra, onde se produz comida (e não commodities), onde se mantém a história e as tradições de um povo que ficou esquecido no coração do Brasil, preservando suas tradições não pela exuberância, mas pela decadência que viveram após o curto ciclo do ouro na região.

A combinação desses dois atrativos, natureza e cultura, fizeram nossa alegria. Foi muito interessante ver a mudança da paisagem, sair de um trecho quase sem pessoas e chegar a outro, povoado, com outras características.

Além das fazendas, nessa segunda parte existem os povoados e as pequenas cidades, como a própria Pirenópolis (que tem um pouco de cada um desses universos), Caxambú, Radiolândia, São Francisco. Cada uma delas tem características muito peculiares e com suas festas tradicionais que podem ser incluídas nos roteiros, dependendo da época do ano em se escolhe fazer o Caminho.

Pirenópolis além de ser um polo turístico, tem a festa do Divino com as Cavalhadas e os pousos de folia (um dos mais importantes pousos é justamente em Caxambú). Radiolândia se destaca pela Folia de Reis. Caxambú faz uma fogueira gigantesca no São João, famosa na região, e é por ali que passam também algumas comitivas de carro de boi, que fazem peregrinação pela região. Corumbá, de onde sai o Caminho, também tem as suas Cavalhadas e um casario histórico muito bonitinho, que vale conhecer.

Texto: Leticia Massula e Marcelo Pedro – Fotos Leticia Massula e Rebeca Vazquez