Saudade e rabanetes

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Se por um lado tive uma infância feliz e privilegiada entre Minas e Goiás profundo, com direito a banho de rio, fruta no pé, floresta, bichos, índios e uma liberdade inimaginável pra crianças de cidade, foi também uma infância marcada pela saudade.

Vivíamos entre Uberlândia – cidade onde nasci e onde morava a minha avó em uma vizinhança que era uma segunda família pra mim – e Goiás, onde meu pai tinha hospital e ficava a maior parte do tempo. Minha mãe e eu íamos de uma cidade para outra, onde passávamos temporadas. Quando a gente estava em Goiás minha avó ia nos visitar, e quando estávamos em Uberlândia, era meu pai quem nos visitava. Eu vivia morrendo de saudade: ou faltava meu pai, ou faltava minha avó. Raramente, e apenas por alguns dias, tudo se juntava no mesmo espaço, ao mesmo tempo.

Cada despedida era pontuada por um berreiro meu, não havia lógica adulta que desse conta da injustiça que eu achava naquela situação toda. João Batista era um amigo que trabalhava como viajante e sempre dava carona pra família, quando não íamos com meu pai, no carro dele. Eu odiava o João Batista, coitado. Não entendia que ele estava ali fazendo uma gentileza, quebrando um galho; pra mim, ele era a personificação de um carrasco, portador de mau agouro. Quando aparecia, era sempre pra me afastar de um pedaço importante de felicidade.

Perto do meu irmão nascer, fomos para Uberlândia pra minha mãe dar à luz, e foi uma despedida particularmente difícil, porque algum adulto no pedaço me contou que desta vez meu pai ia demorar um pouco mais para voltar, uns 3 meses, mas que tudo bem, esse tempo passava rapidinho.

Disse isso com aquele mesmo ar de quando diziam que injeção não doía, era tipo uma picadinha de formiga. Fiquei arrasada, pensando em que tanto de coisas eu teria que fazer pra preencher aquele vazio, para aqueles tais 3 meses passarem mesmo rapidinho, ou quase isso.

E por um desses acasos que a gente não explica, no auge dessa primeira crise existencial, encontrei um pacotinho de sementes de rabanete perdido no quintal. Logo rabanetes, que meu pai adorava! Justo rabanetes, que eu, por outro lado, não conseguia comer, achava ardidos demais!

Não gostava mas sempre flertava com os danadinhos. Aliás, como não sentir vontade de comer uma coisa com aquela cor linda, que depois se misturava com o tempero e formava desenhos no prato, pontilhados de gotinhas amarelas de azeite… E como não sentir vontade de comer qualquer coisa que meu pai preparava, ritualisticamente, em pratinhos de sobremesa para petiscar antes do almoço?

A este hábito, e ao prazer que ele transmitia quando estava preparando ou comendo alguma coisa, eu devia boa parte das minhas paixões gustativas até ali, como os fiozinhos longos de carne de panela passados na farinha de mandioca que ele me dava na boca feito foca, ou as folhas verdes que ele trazia da horta e pegava aos punhados com a mão e passava pela vinagrete que fazia no fundo de um prato, ou os cajus polvilhados com sal. Tudo delicioso. Rabanetes não podiam ser diferentes.

Preparei um pequeno canteiro em um cantinho do quintal e comecei minha plantação. Todo dia, depois da escola, dedicava uma parte da tarde cuidando das plantinhas. Regava, eliminava matinhos e bichinhos do entorno e assim acompanhava dia a dia seu crescimento. O tempo não passou assim tão rapidinho, mas também não foi na lentidão que eu temia.

Quando meu pai enfim voltou, dias depois do Leo nascer, estavam no ponto. Quatro robustos rabanetes que colhi e levei pra ele ainda com terra. Lavamos juntos, depois cortamos em gomos e ele temperou com vinagre, azeite, sal e pimenta-do-reino pra gente comer junto.

E foi assim que aos sete anos de idade aprendi a gostar (muito) de rabanetes, fruto do acaso e de muita saudade. Historinha na medida pra ser contada hoje, quando “seu” Luiz faz 70 anos.

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Parabéns, Comandante Uno! (e toca Raul!!!!)