Vale o Clique 47 – A importância de um restaurante na Nova Orleans pós-Katrina

A importância de um restaurante na Nova Orleans pós-Katrina

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Eu já acompanhava de longe o Papo de Homem, vira e mexe caía um artigo deles nas minhas mãos, todos surpreendentes, ainda mais para uma militante feminista cansada de guerra como eu… sempre pensava: UAU, esses caras mandam bemnunca escorregam no estereótipo… que legal! Mas era assim, um namoro à distância, eventual, sem compromissos… rsrsrsrs

Eis que Dona Claudia Regina chega aqui em casa com o Alex Castro, um dos autores do Papo de Homem, que ela conheceu no Rio de Janeiro… 10 minutos de papo e fiquei fã do moço… fui ler um artigo sobre feminismo dele e me derreti toda, o cara falava com muita propriedade e dava soluções geniais para assuntos sobre os quais um dia eu refleti muito e escrevi um pouco. Mais bacana ainda por se tratar de alguém de fora do movimento feminista. Significa que a questão está cada vez mais inserida e discutida na sociedade, o que me deixa muito feliz.

Enfim, o Papo de Homem como um todo vale mais que um clique, é para dar uma passada sempre, acompanhar mesmo. Mas o que eu quero recomendar, hoje, é um post específico do Alex sobre uma história linda que ele viveu em New Orleans e me contou na estada dele aqui em casa (e merece ser compartilhado).

Conta ele que sua chegada a New Orleans coincidiu com a passagem do Katrina e toda a destruição que ele causou. Alex vivenciou, portanto, nos anos seguintes, a reconstrução da cidade. E em uma situação grave como esta, histórias acontecem. Um sem número de histórias tristes, iluminadas aqui e ali com coriscos de esperança, como aquelas plantinhas que insistem em nascer nas rachaduras de asfalto…

Na volta lenta à normalidade, ao que a cidade era antes da tragédia, a reabertura dos antigos estabelecimentos, entre eles, os restaurantes, gerava uma pequena comoção na comunidade. Ele, que não conhecia New Orleans antes, a princípio não entendia a dimensão de cada um daqueles comedores na vida das pessoas.

Gerava igual comoção a notícia de que determinado restaurante não iria reabrir depois do Katrina, da mesma maneira que comemoravam as casas reabertas, as pessoas comentavam em tom de tristeza: Você viu? O restaurante X não vai voltar…

Um desses restaurantes era perto da casa do Alex. O dono havia desistido. Não ia voltar.

Eis que um cliente deixou um post it na porta pedindo que o restaurante reabrisse, pois foi ali que havia conhecido sua esposa. E no dia seguinte outro cliente colou outro post it com mais uma história do significado daquele restaurante em sua vida, e mais outro e outro e outro, até que toda a fachada do prédio ficasse repleta de mensagens com histórias únicas, de pessoas que haviam sobrevivido e que só pediam uma coisa: que o Camellia Grill voltasse, que ele também sobrevivesse.

Pode parecer bobagem que depois de uma tragédia como a de New Orleans as pessoas se preocupassem com restaurantes, mas o que elas de fato queriam preservar, em meio a tantas perdas, eram os bons momentos que viveram ali, em volta daquela mesa, partilhando o pão. Lembranças de uma cidade que não existia mais e de pessoas que também se foram, personificadas pelas portas abertas de um simples comedor.