Na Cabeceira 47 – Especial Oscar – Filmes com a temática comida

As Recomendações da Casa pra Cabeceira de hoje são especiais. Decidi pegar carona na premiação do Oscar ontem e publicar uma lista com os meus filmes favoritos cuja temática de alguma maneira gira em torno da comida.

comer-beber-viver

Era para ser uma lista de 10 filmes, mas a seleção inicial deu mais que isso, e como sou uma libriana típica não consegui excluir alguns para chegar ao número certo… Daí que resolvi incluir todos e ficar em paz com meu librianismo!

Bom apetite! :)

1- A festa de Babete

Sem dúvida é o primeiro título que vem à cabeça quando o assunto é cinema e comida. Um clássico, para ver e rever várias vezes.

Conta a história de Babete, chef de renomado restaurante parisiense, que pede abrigo na casa de um pastor luterano em um pequeno vilarejo para fugir da repressão à Comuna de Paris. Passa a trabalhar na austera casa como cozinheira e faxineira. Algum tempo depois é informada de que teria recebido uma pequena fortuna e, em lugar de voltar à antiga vida em Paris, decide gastar todo o dinheiro em um jantar com toda a pompa e circunstância para a comunidade que a acolheu (para espanto de todos!).

O que me encanta aqui é a percepção ritualística da comida, tudo o que envolve o processo do fazer. A exata dimensão do porquê a gente faz o que faz.

2- Soul Kitchen

Gosto tanto que tenho em casa e já escrevi especialmente sobre ele em outras Recomendações da Casa.  Acrescento apenas minha cena favorita, quando o cozinheiro Shayan, enfurecido, chama a clientela de “facistas da comida”. Adoro! :)

3- Comer, Beber, Viver

Dirigido por Ang Lee, que levou ontem a estatueta de melhor diretor por As Aventuras de Pi, também é um clássico do assunto.

Conta a história de um genial cozinheiro chinês que perde o paladar (assunte para a tomada inicial de perder o fôlego) e sua relação com as três filhas, para quem ele cozinha religiosamente em sua folga no restaurante, aos domingos.

É um filme belíssimo, super delicado, leve, divertido. Faz parte da primeira fase do diretor, ainda na China – e anterior a Razão e Sensibilidade, sua estreia em Hollywood que eu também adoro. Juntamente com Pushing Hands de 1992 (que eu não vi) e o Banquete de Casamento de 1993 (que AMO, AMO, AMO mil vezes), integra a triologia Father Knows Best, que aborda as relações e conflitos entre a tradição e modernidade.

4- Como água para chocolate

Filme Mexicano, conta a história do amor proibido entre Tita e Pedro. Ela, uma excelente cozinheira destinada a cumprir a tradição da filha mais nova de permanecer solteira, para cuidar da mãe na velhice. Ele, o rapaz por quem se apaixona e é correspondida, mas que acaba se casando com sua irmã mais velha apenas para poder ficar perto de sua amada.

Quando Tita cozinha passa toda a sua emoção para a comida e consequentemente para os comensais, que choram, sorriem e entram em um verdadeiro frenesi amoroso ao participarem das refeições preparadas por ela, como as codornas com pétalas de rosa ou o mole negro que prepara para o casamento de seu amado com sua irmã.

Uma linda fábula!

5- Chocolate

Uma mulher e sua filha pequena chegam durante uma noite a uma pequena vila da França para adoçar a vida dos rígidos moradores!

Este filme é uma festa! (e fala sério, Depp + Chocolate, tem combinação melhor!?)

6-Estômago

Sobre este aqui eu  já escrevi em outra Recomendações da Casa, é um dos obrigatórios sobre o tema, ainda mais porque é produção nacional!

 7- Tampopo

Este aqui também já foi recomendado, e deixo agora mais uma cena que adoro, a do lamen com o mestre, na qual ensinam como devemos comer uma tigela. Cena linda!

8- Simplesmente Martha

Filme alemão sobre uma sisuda e talentosa chef cuja única vida é o trabalho, o que de certa forma serve de desculpa para esconder sua falta de habilidade para o convívio social.

Eis que, de uma tacada só, chega em sua vida a sobrinha de oito anos que acaba de perder a mãe e no restaurante um extrovertido sous chef italiano (que como todo bom italiano adora mostrar os dentes e falar com as mãos!!!!). O que se segue é uma história deliciosa, inteligente e sensível.

Rolou um remake americano, o Sem Reservas, com a Zeta-Jones, que é divertidinho mas está  anos-luz aquém do original.

OBS- Não desligue quando subirem os créditos, tem uma última cena em que ela experimenta o doce que seu analista faz a partir de uma receita sua, e ao questioná-lo sobre se teria usado o açúcar correto, o que ela indicou, solta umas das frases que mais gosto e me identifico:

– Eu não percebo o açúcar que você usou e sim o que você não usou.

9- Almoço em agosto

Pense em um Albergue Espanhol… só que de velhinhas! É mais ou menos esta a pegada de Almoço em Agosto, filme italiano que conta a história de Giovanni, um fracassado solteirão de meia-idade, que mora com a mãe viúva em Roma e vive na pendura com o condomínio, o médico, o armazém…

Eis que chega o Ferragosto, feriado prolongado em pleno verão, ocasião em que toda Roma sai da cidade. É a deixa para o senhorio e o médico cobrarem as dívidas de Giovanni e em troca deixarem as respectivas mães, e uma tia, sob os cuidados dele enquanto seguem para o feriado. O que rola a partir disso é uma história muito divertida e bem contada sobre a terceira idade.

A comida é o pano de fundo, já que Giovanni é excelente cozinheiro, e durante todo o filme a gente sai com ele pelas ruas de Roma para as compras de comida e um trago!

10- A Grande Noite

Esse aqui, assim como O Segredo do Grão, pegam forte com quem trabalha profissionalmente com cozinha. Mostram a ansiedade dos bastidores,  a expectativa, o que ninguém percebe enquanto a cena rola no salão.

Dois irmãos italianos, imigrantes nos Estados Unidos, decidem abrir um restaurante onde investem todas as suas fichas. A história é a de sempre em negócios de comida: um deles, o cozinheiro, decide fazer o jantar perfeito, com os pratos e os ingredientes perfeitos, sem qualquer concessão ao mercado. O outro tem uma mentalidade mais capitalista e acredita que eles devem se adaptar às demandas da clientela.

O conflito oriundo dessa maneira diferente de ver o negócio vai chegar ao seu ápice na grande noite do título, quando decidem fazer um evento especial com um menu idem. Mais que isso, só assistindo!

11- A fantástica fábrica de chocolate

Esse dispensa apresentações. É um marco da minha geração, que cresceu sonhando com uma visita ao mundo mágico de Willie Wonka.

Eu gosto das duas versões. A primeira, super psicodélica, e a do Tim Burton, mais sombria (com certeza muitas crianças devem ficar com medo). Aliás, taí um remake bem executado, adoro as soluções que deram para adequar a história aos atuais avanços tecnológicos. E Depp (sempre ele e novamente com chocolate!) nasceu para esse papel, na minha opinião!

E apesar de parecer um simples filme para a criançada, faz uma excelente reflexão sobre o excesso e a falta, já que o personagem principal passa fome com a família enquanto as outras crianças vivem em um mundo de opulência (quem nunca chorou com a cena do Charlie dividindo sua barra de chocolates com a família… que atire a primeira pedra!).

Os clipes dos Oompas Loompas são um capítulo à parte.

12- O tempero da vida

A vida precisa de sabor, uma pitada de sal e talvez um toque de canela pra que as pessoas se olhem nos olhos. As vezes é preciso também usar um tempero errado para provar um ponto de vista…

É assim que o avô de Fanis, que usa a comida para filosofar sobre a vida, o ensina quando era criança e viviam em Istambul. Já adulto e morando em seu país de origem, a Grécia, resolve voltar para visitar o avó e reencontrar seu grande amor. Prepare o lencinho para muitas emoções! :)

13- O segredo do grão

Esse é obrigatório e de matar. Confesso que pedi arrego no meio da sessão e fui tomar um ar fora da sala, para só então voltar e enfrentá-lo. Além da belíssima reflexão sobre cultura, imigração e pobreza, revirou minhas entranhas ao transportar para a tela a tensão e adrenalina cotidianas da vida na cozinha. Para mim, que estava começando na área e vivendo um momento tenso, foi como um soco na boca do estômago.

É a história de Slimane, um imigrante da Tunísia que vive no sul da França, e aos 60 anos, desempregado, decide abrir com a família um restaurante em um barco para vender um único prato: o couscous fora de série de sua ex-esposa, com quem mantém boa relação (onde almoça todos os fins de semana).

Toda a tensão desemboca na noite de inauguração. Sensacional de cabo a rabo.

14- Delicatessen

Uma fábula de humor negro, conta a história dos moradores de um prédio em uma época pós-apocalíptica, em que as pessoas precisam sobreviver… aqui o tema é o oposto da comida, a fome!

A cena acima, do sexo, é pra mim, uma das melhores do cinema de todos os tempos!

15- Julia e Julie

Eu passaria sem a parte da Julie, que pode até ser uma querida na vida real mas no filme é uma chatinha de galocha… O filme vale a pena para assistir à vida da icônica Julia Child na telona, e também pela maravilhosa atuação da sempre excelente Meryl Streep.

16- Sideways, entre umas e outras.

Assistimos a este filme quando morávamos em Brasília, no extinto cinema da Academia de Tênis, espécie de Espaço Unibanco de lá. Trata da viagem de despedida de solteiro de um ator de TV canastrão, Jack, gatão de meia-idade, acompanhado de seu amigo “looser” Milles, professor de Universidade Comunitária, aspirante a escritor (eternamente aguardando algum editor aceitar publicar seu manuscrito, um livro sério, um calhamaço), que conhece e aprecia bons vinhos. Resolvem ir para o Napa Valley, na cidade de Santa Helena. E lá, enquanto Jack tenta as suas últimas conquistas sexuais antes do matrimônio, Milles encontra uma garçonete bonita, inteligente, e que está terminando o curso de enóloga. Foi por causa deste filme que resolvemos viajar para Califórnia alguns anos atrás e conhecer o tal Vale.

Além de divertido, com um humor meio pessimista, uma pegada mais britânica que estadunidense, foi responsável por aumentar muito o interesse dos enófilos e enocuriosos pela Pinot Noir (varietal típica dos tintos da Borgonha, e que por ser muito delicada, exige terroir muito específico e uma técnica muito caprichada), mas que é detestada pelo escritor enochato.

A cena mais emblemática é dele tomando um Bordeaux Chateau Cheval Blanc, safra 1963 (um super vinho, daqueles classificados como Premier Grand Cru Classé), num copo térmico descartável, com um hamburgão.