Ora-pro-nóbis – Batatinhas no pesto de ora-pro-nóbis

A plantinha

Toda época de chuva é a mesma coisa: muita atenção com Zacarias e seus filhotes no quintal. Sim, Zaca é o nome que dei ao pé de ora-pro-nóbis aqui de casa, que eu trouxe lá de Tiradentes em 2002, presente da Beth Beltrão, do Viradas do Largo . Daí o nome minerim dele, que também foi assim batizado para fazer dupla com Mussum, o pé de boldo!

O fato é que na época da chuva, se a gente não ficar de olho, ele cresce de maneira descontrolada até um ponto que fica quase impossível podar, já que tem espinhos muito afiados que atrapalham o trabalho. Por outro lado, fazem dela uma excelente cerca viva, garanto que ninguém ultrapassa sem uma roupa especial. E não era para menos, embora não se pareça com um cacto, a ora-pro-nóbis ou pereskia aculiata é da mesma família, daí os espinhos.

Plantinha valente essa danada. Uma sobrevivente, se adapta a qualquer lugar. Quando trouxe a minha de Tiradentes, ainda não morava em casa, acabei deixando com a minha mãe que a plantou em um vaso na sala. Naquelas circunstâncias ela cresceu que nem uma trepadeira que minha mãe foi tutoreando com fios de nylon e acabou fazendo um teto verde para a sala, ficou lindo. Nesse caso quase não produziu espinhos e os ramos eram mais fraquinhos. Quando me mudei para cá, fiz uma mudinha dela e plantei no quintal e ela virou um arbusto forte, denso e cheio de espinhos que penei para aprender a lidar.

É muito fácil de fazer muda, basta espetar um pedacinho do talo na terra que ela vai embora. Em duas semanas já está com folhas.

Dia desses estava passeando aqui perto de casa e de repente me dei conta de que a cerca viva de uma casa era toda de ora-pro-nóbis. Já tinha passado várias vezes em frente e não havia atentado, só percebi por conta das flores (confesso que fiquei com vontade de bater na porta da casa e perguntar se @ don@ sabia do que se tratava…mas aí achei muito enxerimento da minha parte).

Meu pai me deu de presente uma mudinha de uma outra espécie, rasteira e sem espinhos que também cresce que é uma loucura e é dada a manias de trepadeira. Ao longo do caule produz umas “batatinhas” que funcionam como brotos. Mas essa veio com nome diferente: lobrobó. Percebi que era a mesma coisa pela espessura da folha e o gosto, que é o mesmo.

Lobrobó (Letícia Massula para Cozinha da Matilde)

A folha é carnuda, como se tivesse uma polpa interna, verde brilhante e baba um pouquinho quando cortada ou rasgada com a mão. As flores da espécie que tenho aqui em casa (existem outras com flores parecidas com a margarida) são cor-de-rosa e parecem mini camélias, são lindas, mas vou ficar devendo uma foto, infelizmente estou sem nenhuma flor no momento. :(

O nome

Outro fato interessante sobre essa plantinha é o nome, ora-pro-nóbis (orai por nós em latim). Achei duas versões para o nome: a primeira contava que deram esse nome porque tinha muita ora-pro-nóbis nos fundos de uma igreja em Minas e enquanto as pessoas colhiam a planta ouviam o padre rezando a missa em latim: – Ora-pro-nóbis…

A outra versão conta que foram Quilombolas que descobriram a plantinha em uma situação de fome muito grande. A solução foi começar a testar plantas para comer, e à medida que experimentavam uma nova diziam: – Ora-pro-nóbis!  – Pedindo proteção caso a plantinha fosse venenosa (Bem inverosímel essa aqui, né? Imagina se quilombola ia rezar ladainha de branco… tsc, tsc, tsc… se ainda fosse um ponto de umbanda… mas aí ia chamar erva de Oxóssi ou talvez, quem sabe, de Xangô).

O alimento

É super rica em proteína o que lhe rendeu o apelido de carne de pobre. Tem até quem afirme que ela tem mais proteína que a carne! Exageros à parte, a verdade é que é uma plantinha rica e alimenta muito bem sim senhor@, tanto que vem sendo usada para enriquecer farinhas e muita gente defende sua utilização em campanhas de combate a fome devido ao valor nutritivo e facilidade de cultivo. É do time da couve e do espinafre, ambos da “tchurma” riquinha.

Uma excelente opção para integrar a dieta de vegetarianos!

Tem sabor neutro. Não é ácida, amarga ou picante, tem gosto de mato, de verde. Mas o que me encanta mesmo é a textura carnuda, gosto de cravar os dentes nas folhas cruas, sentir a maciez e depois ela deslizar pela boca. O pesto (receita abaixo) fica intenso e encorpado.

Em Minas é servido tradicionalmente com frango caipira ensopado. A folhinha entra no final do preparo, da mesma maneira que fazemos com o frango com quiabo. Também é tradicional fazer com costelinha de porco, fica deliciosa. Eu já fiz aqui com rabada e a Neide Rigo fez uma salada deliciosa de ora-pro-nóbis lá no Come-se.

Isso só para dar alguns exemplos da versatilidade dessa linda na cozinha. Quente ou fria, com ou sem carne, ela sempre brilha.

Batatinhas assadas no pesto de ora-pró-nóbis

Para esse post aqui fiz uma receita muito simples mas que faz muito sucesso nos coquetéis que faço e também como acompanhamento de vários pratos: batatas bolinhas assadas e passadas no pesto de ora-pro-nóbis.

Um pesto bem brazuca feito com queijo minas meia cura e castanha do Pará. Já servi também com uma saladinha de abobrinha grelhada, salpicada do queijo minas meia cura, ficou muito gostosa.

  • 1/2 kilo de batatas bolinha inteiras ou partidas ao meio (se forem maiorzinhas)
  • 1 xícara (chá) de folhas de ora-pro-nóbis previamente rasgadas com as mãos
  • 1/2 dente de alho
  • 1/2 xícara (chá) de queijo minas meia-cura ralado
  • 1/3 de xícara (chá) de castanha do pará
  • 1/2 xícara de azeite de oliva ou azeite de castanha do pará
  • sal e pimenta do reino à gosto

Modo de fazer

Pesto

Pesto de ora-pro-nóbis (Letícia Massula para Cozinha da Matilde)

Existem três maneiras de fazer molho pesto:

1-    Amasse a ora pro nobis no pilão (almofariz) acrescente o alho, a castanha e o queijo. Junte o azeite aos poucos. Amasse até se transformar em uma pasta homogênea.

2-    Em uma tábua de corte vá fatiando os ingredientes com a faca em movimento de alavanca e juntando o azeite aos poucos até se transformarem em uma pasta homogênea.

3-    Bata todos os ingredientes no liquidificador ou passe-os pelo processador.

Batatinhas

Pré cozinhe as batatas bolinhas em água fervendo por 10 minutos. Escorra a água em uma peneira. Leve-as ao forno pré aquecido em um refratário, regadas com um fio de azeite e salpicadas com sal. Asse por 15 minutos ou até que fiquem macias e coradas.

Passe as batatinhas pelo pesto, sirva imediatamente, se possível ainda quentes.

De comer rezando!

E olha só, tenho aqui algumas mudinhas de ora-pró-nobis para doação. Quem quiser adotar uma basta comentar aqui!

Harmoniza com… por Marina Novaes (na Pick’up ) e Marcelo Pedro (no Copo)

Este pesto é mais suave que o tradicional, feito com manjericão que é muito aromático. Minha sugestão é um vinho branco seco, bastante mineral, um pouco frutado e com notas herbáceas, como os varietais sauvignon blanc, viognier ou pinot grigio.

Há quem harmonize o pesto tradicional com torrontés, mas o aroma floral e sabor frutado desta variedade de brancos tipicamente argentinos fica meio exagerado frente a suavidade e delicadeza do pesto com ora-pro-nóbis. A Letícia detestou um torrontés que provamos em um jantar maravilhoso que tivemos na Casa Coupage, um restaurante muito descolado em Buenos Aires, que funciona no apartamento de um casal de sommeliers argentinos, que além de ótima comida, ambiente super agradável, tem uma ótima carta de vinhos argentinos. E ainda por cima, com uma relação custo/beneficio excelente!

Uma dica super importante e evitar os brancos chileno envelhecidos em toneis de madeira, como carvalho, que tornam os varietais chilenos meio pesadões, que não combinam com a sutileza do pesto mineirinho.

Os sauvignon blanc argentinos e pinot grigio italianos são os mais indicados. Agora, se vc quiser gastar um pouco mais, a Nova Zelândia é famosa pelos vinhos sauvignon blanc minerais, frescos e herbáceos, mas os poucos que sao importados por aqui chegam com preços mais salgados. Aproveitem a deliciosa combinação desta versão bazuca do molho pesto, com um destes vinhos brancos.

Cálice

Homenagem do Chico à homenagem do Criolo

Este vegetal-cacto-trepadeira com nome santo, harmoniza com a homenagem que o Chico Buarque fez à homenagem que Criolo fez para a música Cálice.

Composta por Chico Buarque e Gilberto Gil em 1973 para o show Phono 73, que a gravadora Polygram fez reunindo em duplas nomes de seu elenco. Segundo o livro Todas as letras (Cia das letras, 1996), de Gilberto Gil, a música foi composta na Semana Santa, e a idéia do calvário e do cálice fez com que o título da música, fosse cantada pelo coral de forma a soar como um raivoso “Cale-se!”. Como uma oração, cheia de espinhos, para despistar a censura da ditadura militar (claro que a música teve sua execução proibida no Brasil). A própria ora-pro-nóbis.

A versão que mais conhecemos está no álbum Chico Buarque (1978), onde Milton Nascimento canta os versos de Gil.

Ano passado, um vídeo com o Chico Buarque cantando a versão que o Criolo fez em rap para a música foi um sucesso (pelo menos na minha timeline). Também, imagina, você ser citado pelo Chico Buarque! Ou melhor, imagina ser (super) reconhecido depois de mais de 20 anos de estrada.

Letras agridoces com pura poesia:

“A ditadura segue meu amigo Milton
A repressão segue meu amigo Chico
Me chamam Criolo e o meu berço é o rap
Mas não existe fronteira pra minha poesia, pai.”

Não é de se espantar que a ora-pro-nóbis é uma delicia, super proteica e ainda dá flor! Evoé!